Texto Final

Introdução

             Nesta breve pesquisa sobre a obra e o projeto modernizador – fundamentado em três aspectos, Economia, Cultura e Eugenia, que irão ser abordados a seguir – que Monteiro Lobato tinha para o Brasil, notamos que seu pensamento sofreu algumas mudanças ao decorrer do tempo. O autor demonstrava grande preocupação com o avanço do país  desde 1915. Suas obras revelavam a preocupação com as condições de vida das populações rurais, bem como outros autores, como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Guimarães Rosa.

       No entanto, as primeiras obras de Lobato focam nos defeitos da raça como responsáveis por supostas características das populações rurais brasileiras, como apatia, indolência, incapacidade para o trabalho, etc. Mais tarde, como aponta o crítico literário Agrupino Grieco, Lobato apresenta uma nova fase, na qual revê suas antigas posições, por volta de 1918. Nessa fase, o autor já não culpa o trabalhador o rural por sua pobreza, nem o rotula como incapaz. Pelo contrário: é dele, que mesmo doente, se extrai grande parcela da riqueza nacional.

         A seguir, traçamos um panorama a partir das bases que fundamentam esse projeto modernizador que Monteiro Lobato tinha para o Brasil. Depois, trataremos sobre a questão da mudança de pensamento de Lobato e como isso se refletiu em sua literatura, bem como a identificação com  pensamento de outros autores da corrente nacionalista.

Economia

         Monteiro Lobato era um grande interessado pela modernização do Brasil. Esse interesse se deu com a sua estadia nos Estados Unidos, de 1927 a 1931, quando trabalhou como adido comercial nomeado pelo presidente Washington Luís. Na sua volta ao Brasil, Lobato se envolve com a questão do petróleo e cria, em 1932, a “Companhia Petróleo Nacional” (CPN), em parceria com Edson de Cardoso, e a “Companhia Petróleos do Brasil” (CBP). A partir disso, Lobato se dedica completamente a essa causa.

            O autor levou toda essa questão à literatura, pois a via como principal arma de divulgação de informação, fazendo uma trilogia sobre Petróleo. Em 1935, ele traduziu, juntamente com Charles Frankie, “A luta pelo petróleo”, de Essad Bey. Em 1936 escreveu “O escândalo do petróleo” e, em 1937, escreveu um livro infantil, “O poço do Visconde”.

          Boa parte da sua relação com a causa petrolífera está documentada nas cartas trocadas com o engenheiro de perfurações, Charles Frankie, no período de 1934 a 1937. Em sua tese de doutorado, Kátia Chiaradia traz à tona esses bastidores do projeto de Monteiro Lobato. Além disso, na análise das cartas, Kátia mostra como Lobato mesclava seus ideais políticos com sua literatura, trazendo, em vários momentos, situações do real para a ficção.
           Conforme afirma Chiaradia, em sua tese, “Lobato e Frankie discutiram literatura em inúmeros aspectos, como o que constitui uma boa tradução, ou ainda o que faz um livro ser bem editado e bem distribuído.” (CHIARADIA, 2016). Os exemplares de “A luta do petróleo”, cuja tradução foi lançada em 1935, eram tidos por eles como propulsores de uma nova Era para as pesquisas petrolíferas. Em carta datada de 01/05/35, Lobato apresenta sua tese de que  “o livro vai abrir os olhos dessa gente”:

“Acabei A Luta do Petróleo. O editor [daqui] pagará 500 marcos ao editor alemão, de direitos, e nós daremos nosso trabalho de tradução de graça em troca de 1000 exemplares para distribuirmos pelo congresso federal e estadual e mais gente do governo que não tem a menor ideia do que seja o petróleo. […] Mas tudo só depois de sair o livro. O livro é que vai abrir os olhos dessa gente, mostrando a significação do petróleo.”

           Segundo Kátia “ao aceitar exemplares do livro como remuneração pelo seu trabalho na tradução d’ “A Luta”, Monteiro Lobato permite-nos ressaltar ao menos duas de suas características como editor: a confiança nos livros como objeto de militância e sua noção de equivalência de valores financeiros “livro x trabalho”. (CHIARADIA, 2016)

           Dentre os seus trabalhos como editor, Lobato foi  tradutor e divulgador dos livros de Henry Ford no Brasil, e durante esse trabalho, ele passou a ter conhecimento da proposta fordista  em relação à técnica de trabalho, e também em relação à visão de mundo defendido por esta abordagem. Lobato passou a ver esse modelo como uma solução para o atraso material do país, além da elaboração de uma forma de sujeição das camadas populares (tendo em vista o movimento grevista ocorrido em 1920, no qual Lobato presenciou o movimento dentro da sua editora).

             Além de confirmar as suas ideias em relação ao atraso brasileiro em comparação ao “progresso” americano e da elaboração de estratégia para vencê-lo (campanha do petróleo), em sua estadia nos Estados Unidos, Lobato também adquiriu outras ideias relacionadas ao projeto de modernização do país, centrada na questão do trabalho. Conforme Campos (1986), no livro “A república do picapau amarelo, nos textos do livro “O problema Vital” (1918), são, “reflexões sobre a questão do trabalho nas quais desponta uma consciência da  necessidade de se modernizar as relações de trabalho no país, através da melhoria das condições de vida da população rural”, sendo assim, a luta pela industrialização do país, fundamentado no modelo fordista. Lobato acreditava que, o trabalho produtivo e eficiente trazia a riqueza e, consequentemente, a eliminação da pobreza.

Cultura

        No artigo “Monteiro Lobato e o racismo”, Adilson Miguel afirma que “muitos estudiosos tendem a considerar mais relevantes sua atuação como homem público do que como escritor. O Trabalho como editor e divulgador de livros é em geral mais valorizado do que sua obra literária”. Contudo, outros autores contra argumentam que o reconhecimento do escritor se constituiu principalmente em suas produções destinadas ao público infantil, ou ainda, segundo Benjamin Abdala Junior, é possível considerar as duas coisas: “(Monteiro Lobato) consagrou-se como nosso maior escritor infanto-juvenil e promoveu uma revolução editorial no país”.

           Antes de se constituir como um autor literário, Lobato se dedicava aos trabalhos jornalísticos, intensificado ainda mais em 1915, com a criação, juntamente com seus sócios, da Revista do Brasil, cuja proposta editorial fundamentava-se  no nacionalismo, no qual tal projeto vinha de encontro com o seu ideário.  No ano de 1920,  Lobato fundou a Monteiro Lobato e Cia, e é nesse período que ele se estabelece no o mundo editorial, promovendo a revolução do mesmo. Como editor, seguindo a tendência editorial, Lobato começa a se dedicar às publicações do gênero didático, ou seja, de uso obrigatório nas escolas. Em 1921,  lançou o livro “Narizinho arrebitado”, que, posteriormente, é adotado pelo governo de São Paulo para uso no segundo ano das escolas públicas, conquistando a crítica e professores. Com o sucesso adquirido pela primeira publicação no ramo da literatura infantil, como também, pela primeira publicação (autoral) da Monteiro Lobato e Cia, Lobato passou a ver o Livro como uma mercadoria, reformulado os padrões gráficos, com o acréscimo de ilustrações e de cores mais chamativas, “tornando o produto mais cativante aos olhos do consumidor” (AZEVEDO, CAMARGOS, SACCHETTA, 1998, p. 131  ).

        Frente a isso, Lobato passa a idealizar que, através dos livros infantis, seria possível educar as crianças com uma nova mentalidade nacional. Após o contato com algumas fábulas de escritores estrangeiros, Lobato passa a querer recriar as histórias de acordo com o seus interesses. No ano de 1922 , lança o livro “Fábulas”, com curtas narrativas, que, ao final, traziam uma moral com o objetivo de formação intelectual das crianças. Segundo a opinião do autor:

       “As fábulas constituem um alimento espiritual correspondente ao leite na primeira infância. Por intermédio delas a moral, que não é outra coisa mais que a própria sabedoria da vida acumulada na consciência da humanidade, penetra na alma infante, conduzida pela loquacidade inventiva da imaginação. Esta boa fada mobiliza a natureza, dá fala aos animais, às árvores, às águas e tece com esses elementos pequeninas tragédias donde ressurte a “moralidade”, isto é, a lição da vida. O maravilhoso é o açúcar que disfarça o medicamento amargo e torna agradável a sua ingestão” (LOBATO, 1922, p.171).

Eugenia

      Em suas primeiras produções literárias, Monteiro Lobato já mostrava a sua preocupação frente ao projeto de modernização do Brasil, em relação à inferioridade do povo brasileiro e a mistura de raça responsáveis, segundo ele, pelo atraso do país criando um tipo de raça incapaz de se desenvolver. Simpatizante do pensamento social determinista, de Le Bons e condicionado pela imagem racista das “elites cultas” do país no final do século XIX e início do século XX,  Lobato defendia a superioridade da raça branca em relação às outras. Esse pensamento era exposto explicitamente em suas obras adultas e infantis. Segundo Lajolo (1998), no artigo “A figura do negro em Monteiro Lobato”, “similares má-criações têm servido de munição para leituras que tomam o xingamento como manifestação explícita do racismo de Lobato”, no mesmo artigo, afirma “ na denúncia bem intencionada dos xingamentos de Emília, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem”.

     No livro “Urupês” (1918), no último conto, Monteiro Lobato apresenta o personagem Jeca Tatu, sendo este a representação dos caboclos que viviam no interior. O autor pensa esse tipo como pessoas impenetráveis ao progresso, pois são pessoas que fundamentam de suas crenças à medicina no misticismo e na cultura popular. Lobato vê de maneira racista a população brasileira, sempre colocando o negro em posição inferior aos brancos.

       Pode-se notar isso no livro “As histórias de tia Nastácia” (1937), no qual as personagens Emília, Narizinho e Pedrinho questionam a todo tempo as histórias populares que tia Nastácia lhes conta. Essa visão do autor fica evidente em trechos do livro como o que se segue:

“ – Sim – disse Dona Benta –  nós não podemos exigir do povo um apuro artístico dos grandes escritores. O povo… o que é o povo? são essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.” (pag. 110).

           Quando Tia Nastácia se coloca como contadora de histórias, ela “transfere para o lugar de contadora de histórias a inferioridade sócio cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso…), por contar histórias que vêm da tradição oral não desempenha função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna á de seus ouvintes, consumidores e exigentes da cultura escrita (…)” (LAJOLO, 1998). No entanto, quando Dona Benta assume a posição de contadora de histórias, no livro “Peter Pan” (1930) e “D.Quixote das crianças” (1936), ela conta as histórias que lê em livros estrangeiros a partir de um espaço hegemônico em relação aos seus ouvintes, visto que é alguém adulta e notoriamente mais experiente.

       Tendo em vista os problemas sociais do país, principalmente em relação ao saneamento básico, Lobato passa a se questionar se o real “problema” dos caboclos eram antes  em função do meio no qual viviam, do “subdesenvolvimento” do país que gera a fome, a doença e a pobreza, e com isso, ele repensa o seu julgamento  no livro “O problema vital” (1918 ), no qual diz, “O  caipira não é assim. Está assim”.

Jeca Tatu: três metamorfoses

         De acordo com Lajolo (1983), Lobato redefine a caracterização do “Jeca tatu” no curso das décadas de 1990 a 1940; o Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho e Zé Brasil. Em 1914, ano do lançamento do artigo “Urupês”, Lobato apresenta pela primeira vez a figura anti-heróica do personagem. Jeca tatu é o retrato do homem do interior, sinônimo do caipira; preguiçoso, inadaptável à civilização, que faz uso da terra apenas para a subsistência, pois é incapaz de se desenvolver economicamente. Classificando-o como “Praga nacional”, neste período, Lobato acreditava que a situação socioeconômica do país se deve exclusivamente ao próprio caboclo. Dez anos depois, o mesmo Jeca retorna, mas, agora, como vítima das enfermidades que assolavam o território brasileiro e pelo descaso do Estado para com suas necessidades. Agora, com o nome de Jeca tatuzinho, ele passa a ser usado como ferramenta de denúncia e de campanha em favor do saneamento, além de educar e esclarecer à população sobre as doenças locais, dentre elas o amarelão. Segundo Lajolo (1983), o Jeca passa a ser apresentado como vítima por Lobato: “opilado pela verminose, fraco, anêmico, os males desta Jeca dos anos vinte  não começam na preguiça nem na falta de disposição para o trabalho: a desnutrição e a precariedade de seu estado de saúde é que desembocam na pouca produtividade do camponês itinerante” ( LAJOLO,1983, p.101).  Dentre as campanhas para combater esta moléstia, foi criado e difundido por uma empresa farmacêutica o “Tônico Fontoura”, remédio milagroso contra as verminoses, no qual se promovia a imagem do Jeca tatuzinho, curado e convertido pelos hábitos de higiene, que, com ajuda da ciência, tornava-se um homem trabalhador e civilizado. Para Lajolo (1983), “com a recuperação da saúde, o Jeca adquire um nível exemplar de cidadania: assumindo a bandeira de seu narrador, o curado e enriquecido caboclo leva, entre a carga de seu caminhão, grande estoque de produtos Fontoura, com os quais redime a saúde nacional e, por tabela, a situação do camponês brasileiro” ( LAJOLO, 1983, p.102).

fff(Almanaque do Biotônico, ilustração de J. U. Campos).

           A terceira aparição do Jeca ocorre em  1947, conhecido agora por Zé Brasil, Lobato rebatiza o personagem a partir de uma mudança de pensamento devido à aproximação com o Partido Comunista Brasileiro. A relação com o personagem muda, o texto “didatiza-se, enrijece e perde o jogo de cintura” (LAJOLO,1983, p.102). Alienado, Zé Brasil discute com um interlocutor anônimo a situação precária do qual vive, em decorrência do sistema econômico agrário e pelo latifúndio no país.

          Com essas caracterizações apresentadas acima é possível perceber as “variantes” do mesmo personagem. Para Lajolo (1983), esse “itinerário” só é possível devido aos problemas sociais brasileiro do período.

Contexto Intelectual  

       A partir da mudança de entendimento com relação ao caboclo versus o meio, Lobato passa a compartilhar do mesmo pensamento de alguns intelectuais da época, dentre eles, Euclides da Cunha e Lima Barreto. Em oposição aos modernistas, esses autores usavam a literatura como um instrumento de denúncia social. Inseridos em um contexto nacionalista, tais escritores passam a refletir sobre a real situação “do homem trabalhador do campo” (CAMPOS, 1986, p.35). Apesar de o caboclo  não ser mais o principal “motivo” do atraso do país, o pensamento social darwinista e as ideias racistas ainda persistiam entre os intelectuais, principalmente em Lobato. Contudo, o centro do debate passou a ser a questão do saneamento e da higiene, sendo que a solução estaria na eficiência do trabalho.

          Pode-se dizer que a partir desses debates, começa a se desenvolver uma ideologia sanitarista no Brasil, mais especificamente sobre o sanitarismo rural, que se seguiu ao sanitarismo urbano. Até 1915, as políticas sanitaristas se limitavam às cidades, enquanto o sertão permanecia esquecido. Começa a existir, então, uma preocupação em revelar a força simbólica do movimento pelo saneamento dos sertões enquanto ideologia de construção nacional. Então, durante o período republicano do Brasil, a produção literária passou a ser marcadamente nacionalista, de modo que o objetivo era construir uma identidade nacional.

    Segundo Luiz de Castro Santos, nesse contexto, existiam duas correntes de pensamento nacionalista, “uma sonhava com um Brasil “moderno” e atraía intelectuais que viam no crescimento e progresso das cidades brasileiras os sinais da conquista da civilização. A outra corrente preocupava-se em recuperar no interior do país as raízes da nacionalidade, e buscava integrar o sertanejo ao projeto de construção nacional.”  (SANTOS, 1985). Pode-se dizer que Monteiro Lobato passou por essas duas correntes, visto que seu projeto modernizador visava a modernização do país e que, mais tarde, passou a valorizar questões que tratavam dos sertanejos.

       Essa questão do sertão teve início com Euclides da Cunha, com o livro “Os Sertões”. O autor foi contra a corrente intelectual que prezava pela cultura europeia, pois tal corrente fugia da própria nacionalidade, visto que se fundamentava em costumes e ideais europeus. Essa temática do isolamento e atraso do sertanejo também se revelou nas obras de Monteiro Lobato, que lutou pela modernização do país e, desde 1915, passou a tratar em suas obras sobre a preocupação com as condições de vida da população rural.

           Como já mencionado, as primeiras obras de Lobato eram focadas nos defeitos da “raça” como responsáveis por supostas características das populações rurais, como apatia e incapacidade para o trabalho. No entanto, por volta de 1918, segundo o crítico Agripino Grieco, Lobato começa a apresentar uma nova face em suas obras, na qual revê suas antigas posições e já não culpa o sertanejo por sua pobreza e nem o rotula como antes, pelo contrário: ele passa a entender o sertanejo como fonte de grande parcela da riqueza nacional, mesmo estando doente. Lobato estava convicto de que “a doença é a origem de todos os males do país. A doença, não permitindo ao homem brasileiro desenvolver toda a sua potencialidade física e mental, estava criando uma raça de fracos, incapazes para o trabalho eficiente” (CAMPOS, 1986, p.36).

        Lobato passa a ter como problemática de seus textos as doenças endêmicas, e passa a escrever diversos artigos com o intuito de divulgar as ideias sobre o saneamento nacional, publicados no jornal Estado de S. Paulo. Sua preocupação era, em parte, com as condições de saúde do caipira, de forma que o saneamento rural era a questão nacional por excelência. A questão fundamental para esses autores que constituíam essa corrente nacionalista era fazer com que os intelectuais começassem a olhar para as endemias do sertão, pois, assim, se construiria uma identidade nacional, de fato. Essa integração dos sertões ao litoral representava um grande desafio para que houvesse o fortalecimento da nacionalidade, pois a população doente significa uma raça fraca, e uma raça fraca geraria uma nação sem futuro.

Lobato e Euclides da Cunha

         Lobato e Euclides da cunha tinham muito em comum quando tratamos de projetos para o Brasil. Euclides da Cunha era ligado a temas de engenharia, bem como Monteiro Lobato, e também idealizou diversos projetos que visavam a modernização do país, procurando integrar regiões como o sertão ao litoral. Euclides da Cunha, com a sua obra Os Sertões inspira muitos outros autores a escreverem sobre a causa nacionalista/regionalista dessa época. No artigo “A conquista do espaço: sertão e fronteira no pensamento brasileiro”, a socióloga Lucia Lippi afirma que “a denúncia do descaso e irresponsabilidade das elites para com o sertanejo do norte, inaugurada por Euclides, teria sido continuada por Monteiro Lobato ao denunciar o abandono do sertanejo do sul, o caipira, caricaturado na figura do Jeca Tatu.” (LIPPI, 1998)

         No início da década de 1920 se prospera essa literatura voltada à temática regionalista, em que se tratava sobre a cultura da vida no campo e sobre a figura caipira. Esse regionalismo abrange, inclusive, cinemas e jornais, trazendo à tona a realidade dos sertões para as pessoas da cidade. Havia, na literatura brasileira uma visão sobre o sertão pelo menos sob três perspectivas (CRISTÓVÃO, 1993-94). A primeira é o sertão como paraíso, expressada no romantismo. Trata-se sobre um paraíso perdido em que tudo era perfeito, belo e justo e cuja linguagem retrataria uma pureza original a ser apreciada e preservada. A segunda forma associa o sertão ao inferno. O destempero da natureza, o desespero dos que por ele perambulam (retirantes, cangaceiros, volantes, beatos), a violência como código de conduta e o fatalismo são as principais características dessa visão. Euclides da Cunha é um dos representantes desta leitura do sertão como inferno, ainda que sua explicação seja de ordem político-cultural. Por fim, a visão do sertão como o purgatório. Pode-se relacionar essa perspectiva com as obras de Guimarães Rosa, em que o sertão é um lugar de travessia, definido pelo exercício da liberdade e pela dramaticidade da escolha de cada um. O sertão é visto como um lugar de penitência e de reflexão.

           Euclides da Cunha, quando trata do sertão, transmite a sensação de se sentir estrangeiro dentro de seu próprio país. Diante das diferenças entre o ambiente em que vivia e do sertão, ele questiona a existência de um Brasil único, passando a duvidar da possibilidade de existir uma nação com tantas diferenças dentro dela mesma. Euclides pensa, então, que para unificar a nação, seria necessário a unificação desses diferentes ritmos civilizatórios, ou seja, o importante é colocar lado a lado o sertão e o litoral, não importando a heterogeneidade de raças. Euclides vê o sertanejo como retrógrado e não como degenerado. Tal atraso se deve ao abandono a que foi relegado e não aos condicionamentos e determinações de ordem genética.

           A civilização, portanto, seria capaz de sincronizar os tempos sociais do sertão e do litoral. A ação governamental resolveria a diferença entre tempos sociais, levando modernidade aos espaços atrasados, tornando-os civilizados. Sua posição como engenheiro e cartógrafo, cuja missão é trazer progresso ao Brasil se revela em grande parte de suas obras.  “Na primeira parte de Os sertões, Euclides mostra o sertão como um território estranho, um vazio, um hiato, um espaço em branco a ser preenchido. Na indiferença dos brasileiros e do governo por sua própria terra estaria a raiz desta ignorância e deste desconhecimento do território sertanejo. O sertão seria mesmo a prova da existência de fronteiras internas que ameaçavam a nacionalidade. Para Euclides era mister tornar a totalidade do espaço territorial um espaço nacional.” (LIPPI, 1998).  

      Além de se preocupar em buscar conhecer o sertão, Euclides também fez expedições à Amazônia, que renderia no livro “Um paraíso perdido”, o qual não foi concluído. Euclides desejava integrar o sertão à vida nacional. Tal processo deveria começar com estudos de campo nas regiões, buscando compreender os causadores da desordem climática.  O autor também defendia um plano de combate à seca pela construção de pequenos e numerosos açudes capazes de transformar o deserto em uma rica região agrícola. Na Amazônia, Euclides propôs a recuperação do rio Purus, a construção de uma estrada de ferro – a Transacreana – que seria capaz de espalhar frentes de colonização e proteger as fronteiras do país. Neste sentido, Euclides pode ser visto como um precursor de ideias e projetos que foram implementados, com ou sem sucesso, anos mais tarde, como a Madeira-Mamoré, o IBGE, o DNOCS e, até mesmo, a Calha-Norte. (LIPPI, 1998).

         Diante desse panorama, pode-se notar que a trajetória de Euclides da Cunha muito se assemelha à de Monteiro Lobato, visto que os dois se interessavam por temas como a modernização do país, fundamentados na integração do sertão ao litoral. Ambos idealizaram, para o país, projetos voltados à engenharia. Há também em comum entre ambos uma frustração com o descaso do governo em relação ao progresso. No caso de Euclides, em relação à descrença na República e na política, e no caso de Lobato, em relação à pouca vontade do governo em investir no petróleo. Assim, acreditamos que nesse contexto regionalista, envolvendo literatura e projetos visando o progresso, há ecos do projeto modernizador de Euclides no projeto de Lobato.

Lobato e Jorge de Lima

         Dentre as produções literárias  pertencentes ao grupo do chamado “romance de 30”, o romance de  Jorge de Lima “Calunga”, publicado em 1935, pode ser considerado um deles pelo fato de a obra seguir a mesma linha temática das produções representativas desta época, da qual a principal característica é a denúncia social. No romance de Jorge de Lima, tais características estão representadas ao serem abordadas pelo autor, através do seu protagonista, Lula Bernardo, questões como o colonialismo da época (ao qual o autor faz uma crítica), a pobreza e o abandono do trabalhador nordestino pelas autoridades locais.

          Pode-se dizer que Lobato e Jorge de lima compartilhavam do mesmo ideário nesse período, pois ambos acreditavam que a saída para a atual situação de decadência e de abandono do interior (Lobato interior paulista e Lima interior nordestino), seria através da educação e da mudança das formas de trabalho. Mas, para os escritores, primeiro era necessário transformar o meio, reverter as más condições de higienes, acabar com a lama (Lima) e com as doenças provindas dela e, só assim, seria possível educar e implementar as novas técnicas de trabalho. Isso porque, nesse período, ambos acreditavam que o causador dos males do caboclo era o meio onde vivia, meio esse negligenciado pelas autoridades, principalmente com relação ao saneamento básico, já que sua ausência era a principal causa da proliferação de doenças endêmicas, como, por exemplo, o amarelão. Ou seja, a pobreza e o mal que arruinava a disposição para o trabalho eram consequências do meio ambiente físico.

      A educação seria um dos meios para reverter tais condições do caboclo, informando-o sobre os riscos de viver nessas condições. Como exemplo, a seguinte passagem do romance; “Lula se afobava dando explicações, contando coisas de higiene, como seriam contaminados pelo chão, como decairiam doentes, sem reação, empalemados, transformados nesse pessoal bucho-de-lama das propriedades vizinhas. Era preciso que mudassem de hábito e uma população forte surgiria dali, a terra se transformaria, conheceriam melhor a vida” prosseguindo, “Lula continuava a pregação, ensinando como a maleita se transmitia, como o mal arruinava a vontade, diminuindo a capacidade de trabalho” (LIMA,1935, p.36).

      Considerado um romance regionalista, por retratar uma cidade do interior nordestino e verossímil, devido ao fato dos acontecimentos narrados serem semelhantes à realidade, o  romance mostra a relação do personagem principal com o meio natural e social, os problemas da seca, da miséria, das endemias e da ignorância presenciados por ele. Isso se caracteriza pelo fato de o autor ter presenciado essa realidade antes de transportá-la para a ficção. No romance, o personagem principal demonstra ao longo da narrativa o sentimento de inconformidade para com o presente, com a situação que ele encontrou na cidade natal com relação aos modos de trabalho com a falta de higiene dos caboclos e com a indiferença em relação às novas “técnicas” de trabalho. Para o personagem, era preciso tirar os homens da lama e fazer com que eles trabalhassem com algo mais “limpo”, como  a criação de carneiros, por exemplo. O seu engajamento para a criação de uma nova realidade, aos poucos, vai se perdendo, ao se dar conta da impossibilidade  de mudança dos  hábitos do caboclo.

Conclusão

              Inicialmente, o objetivo deste trabalho era fazer uma apresentação de Monteiro Lobato e seu projeto de modernização do Brasil a partir da análise de seu livro Urupês, mais especificamente dos dois últimos contos “Velha Praga” e “Urupês”. No entanto, ao longo do processo de pesquisa sobre a bibliografia do autor, optamos por mudar, em certa medida, o foco de análise, pois percebemos que, para compreender a crítica do autor, era preciso entender por completo o seu projeto de modernização, que se fundamentava em três aspectos: economia, cultura e eugenia. Em Urupês, Lobato inicia, de fato, sua contribuição com a literatura sanitarista do sertão, que visa apresentar e tratar os problemas relacionados ao campo e não mais à cidade. No entanto, sua visão acerca do caboclo nessa obra, que data 1918, se modifica ao longo de suas produções com essa temática.

            No início da pesquisa ficou claro que teríamos que fazer uma distinção entre as obras destinadas ao público infantil e as obras adultas do autor, visto que o nosso objeto de estudo pertencia à produção adulta de Lobato. Mas, durante o processo de pesquisa, algumas das produções infantis eram resultados e até mesmo reproduções do pensamento do escritor, que acreditava que a associação entre infantil e adulto  se fazia  necessária. É inquestionável que Monteiro Lobato é mais conhecido pelas suas produções infantis nos dias de hoje. O mundo fantástico do Sítio do Picapau Amarelo tem atravessado gerações com suas histórias que aguçam a imaginação do leitor e, hoje, a série é a maior representante da literatura infantil no Brasil. Entretanto, mesmo nas obras infantis, a presença do racismo se faz presente através do tratamento dado aos personagens negros e dos termos preconceituosos contidos em alguns dos livros, o que gerou e ainda gera discussões sobre o uso de suas obras no ambiente escolar.

          Acreditamos que ambas produções de Lobato devem ser lidas e analisadas à luz do seu contexto histórico de produção, ou seja, elas não devem ser lidas separadamente do seu autor, pois é importante compreender o momento histórico, o contexto intelectual e o compartilhamento de ideias lançadas pelo autor. Por outro lado, entendemos que o contexto não é justificativa ou conformidade para as ideologias racista do autor, visto que nos dias de hoje o preconceito racial é bastante marcado em nossa sociedade e uma produção literária que classifica o negro, o caboclo, o índio como raças inferiores, está totalmente em desacordo com os princípios democráticos do século XXI.

            Ainda assim, pode-se notar alguns ideais de Lobato, bem como de muitos outros autores de seu período, ressoando atualmente na sociedade. Um deles é a ideia de que o progresso de uma civilização se dá através da modernização industrial, por exemplo. Ainda há certo preconceito com pessoas que moram no campo, no sentido de as pessoas urbanas as verem como “atrasadas”, simplesmente pelo fato de não estarem no mesmo ambiente.  E, ainda que hoje em dia algumas ações sejam classificadas como crime, como o racismo, é muito comum ainda vermos verbalizações racistas e injúrias a pessoas negras.

Referências Bibliográficas

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SCHWARZ, Roberto. Os pobres na Literatura brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

Padrão

Balanço Bibliográfico / Conclusão

Introdução

             Nesta breve pesquisa sobre a obra e o projeto modernizador – fundamentado em três aspectos, Economia, Cultura e Eugenia, que irão ser abordados a seguir – que Monteiro Lobato tinha para o Brasil, notamos que seu pensamento sofreu algumas mudanças ao decorrer do tempo. O autor demonstrava grande preocupação com o avanço do país  desde 1915. Suas obras revelavam a preocupação com as condições de vida das populações rurais, bem como outros autores, como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Guimarães Rosa.

       No entanto, as primeiras obras de Lobato focam nos defeitos da raça como responsáveis por supostas características das populações rurais brasileiras, como apatia, indolência, incapacidade para o trabalho, etc. Mais tarde, como aponta o crítico literário Agrupino Grieco, Lobato apresenta uma nova fase, na qual revê suas antigas posições, por volta de 1918. Nessa fase, o autor já não culpa o trabalhador o rural por sua pobreza, nem o rotula como incapaz. Pelo contrário: é dele, que mesmo doente, se extrai grande parcela da riqueza nacional.

            A seguir, traçamos um panorama a partir das bases que fundamentam esse projeto modernizador que Monteiro Lobato tinha para o Brasil. Depois, trataremos sobre a questão da mudança de pensamento de Lobato e como isso se refletiu em sua literatura, bem como a identificação com  pensamento de outros autores da corrente nacionalista.

Economia

        Monteiro Lobato era um grande interessado pela modernização do Brasil. Esse interesse se deu com a sua estadia nos Estados Unidos, de 1927 a 1931, quando trabalhou como adido comercial nomeado pelo presidente Washington Luís. Na sua volta ao Brasil, Lobato se envolve com a questão do petróleo e cria, em 1932, a “Companhia Petróleo Nacional” (CPN), em parceria com Edson de Cardoso, e a “Companhia Petróleos do Brasil” (CBP). A partir disso, Lobato se dedica completamente a essa causa.

          O autor levou toda essa questão à literatura, pois a via como principal arma de divulgação de informação, fazendo uma trilogia sobre Petróleo. Em 1935, ele traduziu, juntamente com Charles Frankie, “A luta pelo petróleo”, de Essad Bey. Em 1936 escreveu “O escândalo do petróleo” e, em 1937, escreveu um livro infantil, “O poço do Visconde”.

          Boa parte da sua relação com a causa petrolífera está documentada nas cartas trocadas com o engenheiro de perfurações, Charles Frankie, no período de 1934 a 1937. Em sua tese de doutorado, Kátia Chiaradia traz à tona esses bastidores do projeto de Monteiro Lobato. Além disso, na análise das cartas, Kátia mostra como Lobato mesclava seus ideais políticos com sua literatura, trazendo, em vários momentos, situações do real para a ficção.
Conforme afirma Chiaradia, em sua tese, “Lobato e Frankie discutiram literatura em inúmeros aspectos, como o que constitui uma boa tradução, ou ainda o que faz um livro ser bem editado e bem distribuído.” (CHIARADIA, 2016). Os exemplares de A luta do petróleo, cuja tradução foi lançada em 1935, eram tidos por eles como propulsores de uma nova Era para as pesquisas petrolíferas. Em carta datada de 01/05/35, Lobato apresenta sua tese de que  “o livro vai abrir os olhos dessa gente”:

“Acabei A Luta do Petróleo. O editor [daqui] pagará 500 marcos ao editor alemão, de direitos, e nós daremos nosso trabalho de tradução de graça em troca de 1000 exemplares para distribuirmos pelo congresso federal e estadual e mais gente do governo que não tem a menor ideia do que seja o petróleo. […] Mas tudo só depois de sair o livro. O livro é que vai abrir os olhos dessa gente, mostrando a significação do petróleo.”

            Segundo Kátia “ao aceitar exemplares do livro como remuneração pelo seu trabalho na tradução d’ “A Luta”, Monteiro Lobato permite-nos ressaltar ao menos duas de suas características como editor: a confiança nos livros como objeto de militância e sua noção de equivalência de valores financeiros “livro x trabalho”. (CHIARADIA, 2016)

             Dentre os seus trabalhos como editor, Lobato foi  tradutor e divulgador dos livros de Henry Ford no Brasil, e durante esse trabalho, ele passou a ter conhecimento da proposta fordista  em relação à técnica de trabalho, e também em relação à visão de mundo defendido por esta abordagem.  Lobato passou a ver esse modelo como uma solução para o atraso material do país, além da elaboração de uma forma de sujeição das camadas populares ( tendo em vista o movimento grevista ocorrido em 1920, no qual Lobato presenciou o movimento dentro da sua editora).

             Além de confirmar as suas ideias em relação ao atraso brasileiro em comparação ao “progresso” americano, e da elaboração de estratégia para vencê-lo (campanha do petróleo), em sua estadia nos Estados Unidos, Lobato também adquiriu outras ideias relacionadas ao projeto de  modernização do país, centrada na questão do trabalho. Conforme Campos (1986), no livro “A república do picapau amarelo, nos textos do livro “O problema Vital” (1918), são, “reflexões sobre a questão do trabalho nas quais desponta uma consciência da  necessidade de se modernizar as relações de trabalho no país, através da melhoria das condições de vida da população rural” , sendo assim, a luta pela industrialização do país, fundamentado no modelo fordista. Lobato acreditava que, o trabalho produtivo e eficiente trazia junto a riqueza e consequentemente a eliminação da pobreza.

Cultura

           No artigo “Monteiro Lobato e o racismo”, Adilson Miguel afirma que “muitos estudiosos tendem a considerar mais relevantes sua atuação como homem público do que como escritor. O Trabalho como editor e divulgador de livros é em geral mais valorizado do que sua obra literária”. Contudo, outros autores contra argumentam que o reconhecimento do escritor se constituiu principalmente em suas produções destinadas ao público infantil, ou ainda, segundo Benjamin Abdala Junior, é possível considerar as duas coisas: “(Monteiro Lobato) consagrou-se como nosso maior escritor infanto-juvenil e promoveu uma revolução editorial no país”.

           Antes de se constituir como um autor literário, Lobato se dedicava aos trabalhos jornalísticos, intensificado ainda mais em 1915, com a criação, juntamente com seus sócios, da Revista do Brasil, cuja proposta editorial fundamentava-se  no nacionalismo, no qual tal projeto vinha de encontro com o seu ideário.  No ano de 1920,  Lobato fundou a Monteiro Lobato e Cia, e é nesse período que ele se estabelece no o mundo editorial, promovendo a revolução do mesmo. Como editor, seguindo a tendência  editorial, Lobato começa a se dedicar às publicações do gênero didático, de uso obrigatório nas escolas. Em 1921,  lançou o livro “Narizinho arrebitado”, que, posteriormente, é adotado pelo governo de São Paulo para uso no segundo ano das escolas públicas, conquistando a crítica e professores. Com o sucesso adquirido pela primeira publicação no ramo da literatura infantil, como também, pela primeira publicação (autoral) da Monteiro Lobato e Cia, Lobato passou a ver o Livro como uma mercadoria, reformulado os padrões gráficos, com o acréscimo de ilustrações e de cores mais chamativas, “tornando o produto mais cativante aos olhos do consumidor” (AZEVEDO, CAMARGOS, SACCHETTA, 1998, p. 131  ).

               Frente a isso, Lobato passa a idealizar que, através dos livros infantis, seria possível educar as crianças com uma nova mentalidade nacional. Após o contato com algumas fábulas de escritores estrangeiros, Lobato passa a querer recriar as histórias de acordo com o seus interesses. No ano de 1922 , lança o livro “Fábulas”, com curtas narrativas,  que, ao final, traziam uma moral com o objetivo de formação intelectual das crianças. Segundo a opinião do autor:

“As fábulas constituem um alimento espiritual correspondente ao leite na primeira infância. Por intermédio delas a moral, que não é outra coisa mais que a própria sabedoria da vida acumulada na consciência da humanidade, penetra na alma infante, conduzida pela loquacidade inventiva da imaginação. Esta boa fada mobiliza a natureza, dá fala aos animais, às árvores, às águas e tece com esses elementos pequeninas tragédias donde ressurte a “moralidade”, isto é, a lição da vida. O maravilhoso é o açúcar que disfarça o medicamento amargo e torna agradável a sua ingestão” (LOBATO, 1922, p.171).

Eugenia

          Em suas primeiras produções literárias, Monteiro Lobato já mostrava a sua preocupação frente ao projeto de modernização do Brasil, em relação à inferioridade do povo brasileiro e a mistura de raça responsáveis, segundo ele, pelo atraso do país criando um tipo de raça incapaz de se desenvolver. Simpatizante do pensamento social determinista, de Le Bons e condicionado pela imagem racista das “elites cultas” do país no final do século XIX e início do século XX,  Lobato defendia a superioridade da raça branca em relação às outras. Esse pensamento era exposto explicitamente em suas obras adultas e infantis. Segundo Lajolo (1998), no artigo “A figura do negro em Monteiro Lobato”, “similares má-criações têm servido de munição para leituras que tomam o xingamento como manifestação explícita do racismo de Lobato”, no mesmo artigo, afirma “ na denúncia bem intencionada dos xingamentos de Emília, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem”.

             No livro “Urupês” (1918), no último conto, Monteiro Lobato apresenta o personagem Jeca Tatu, sendo este a representação dos caboclos que viviam no interior. O autor pensa esse tipo como pessoas impenetráveis ao progresso, pois são pessoas que fundamentam de suas crenças à medicina no misticismo e na cultura popular. Lobato vê de maneira racista a população brasileira, sempre colocando o negro em posição inferior aos brancos.

               Pode-se notar isso no livro “As histórias de tia Nastácia” (1937), no qual Emília, Narizinho e Pedrinho questionam a todo tempo as histórias populares que tia Nastácia lhes conta. Essa visão do autor fica evidente em trechos do livro como o que se segue:

“ – Sim – disse Dona Benta –  nós não podemos exigir do povo um apuro artístico dos grandes escritores. O povo… o que é o povo? são essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.” (pag. 110).

                  Quando Tia Nastácia se coloca como contadora de histórias, ela “transfere para o lugar de contadora de histórias a inferioridade sócio cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso…), por contar histórias que vêm da tradição oral não desempenha função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna á de seus ouvintes, consumidores e exigentes da cultura escrita (…)” (LAJOLO, 1998). No entanto, quando Dona Benta assume a posição de contadora de histórias, no livro “Peter Pan” (1930) e “D.Quixote das crianças” (1936), ela conta as histórias que lê em livros estrangeiros a partir de um espaço hegemônico em relação aos seus ouvintes, visto que é alguém adulta e notoriamente mais experiente.

             Tendo em vista os problemas sociais do país, principalmente em relação ao saneamento básico, Lobato passa a se questionar se o real “problema” dos caboclos eram antes  em função do meio no qual viviam, do “subdesenvolvimento” do país que gera a fome, a doença e a pobreza, e com isso, ele repensa o seu julgamento  no livro “O problema vital” (1918 ), no qual diz, “O  caipira não é assim. Está assim”.

Jeca Tatu: três metamorfoses

                  De acordo com Lajolo (1983), Lobato refine a caracterização do “Jeca tatu” no curso das décadas de 1990 a 1940; o Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho e Zé Brasil. Em 1914, ano do lançamento do artigo “urupês”, Lobato apresenta pela primeira vez a figura anti-heróica do personagem. Jeca tatu é o retrato do homem do interior, sinônimo do caipira; preguiçoso, inadaptável à civilização, faz uso da terra apenas para a subsistência, pois é incapaz de se desenvolver economicamente. Classificando-o como “Praga nacional”, neste   período, Lobato acreditava que a situação socioeconômica do país se deve exclusivamente ao próprio caboclo. Dez anos depois, o mesmo Jeca retorna, mas agora, como vítima das enfermidades que assolavam o território brasileiro e pelo descaso do Estado para com suas necessidades. Agora, com o nome de Jeca tatuzinho, ele passa a ser usado como ferramenta de denúncia e de campanha em favor ao saneamento, além de educar e esclarecer à população sobre as doenças locais, dentre elas: o amarelão. Segundo Lajolo(1983), o Jeca passa a ser apresentado como vítima por Lobato: “opilado pela verminose, fraco, anêmico, os males desta Jeca dos anos vinte  não começam na preguiça nem na falta de disposição para o trabalho: a desnutrição e a precariedade de seu estado de saúde é que desembocam na pouca produtividade do camponês itinerante” ( LAJOLO,1983, p.101).  Dentre as campanhas para combater esta moléstia foi criado e difundido por uma empresa  farmacêutica,  o “Tônico Fontoura”,  remédio milagroso contra as verminoses,  no qual promovia a imagem do Jeca tatuzinho, curado e convertido pelos hábitos de higiene, que com ajuda da ciência  tornava-se um homem trabalhador e civilizado. Para Lajolo (1983), “com a recuperação da saúde, o Jeca adquire um nível exemplar de cidadania: assumindo a bandeira de seu narrador, o curado e enriquecido caboclo leva, entre a carga de seu caminhão, grande estoque de produtos Fontoura, com os quais redime a saúde nacional e, por tabela, a situação do camponês brasileiro” ( LAJOLO, 1983, p.102).

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(Almanaque do Biotônico, ilustração de J. U. Campos).

              A terceira aparição do Jeca ocorre em  1947, conhecido agora por Zé Brasil, Lobato rebatiza o personagem a partir de uma mudança de pensamento devido à aproximação com o Partido Comunista Brasileiro. A relação com o personagem muda, o texto “didatiza-se, enrijece e perde o jogo de cintura” (LAJOLO,1983, p.102). Alienado, Zé Brasil discute com um interlocutor anônimo a situação precária do qual vive, em decorrência do sistema econômico agrário e pelo latifúndio no país.

         Com essas caracterizações apresentadas acima é possível perceber as “variantes” do mesmo personagem, Para Lajolo (1983), este “itinerário” só é possível devido aos problemas sociais brasileiro do período.

  Contexto Intelectual  

               A partir da mudança de entendimento com relação ao caboclo versus o meio, Lobato passa a compartilhar do mesmo pensamento de alguns intelectuais da época, dentre eles, Euclides da Cunha e Lima Barreto, em oposição aos modernistas,  eles usavam a literatura como um instrumento de denúncia social. Inseridos em um contexto nacionalista, tais escritores passam a refletir sobre a real situação “do homem trabalhador do campo” (CAMPOS, 1986, p.35). Apesar de o caboclo  não ser mais o principal “motivo” do atraso do país, o pensamento social darwinista e as ideias racistas ainda persistiam entre os intelectuais, principalmente em Lobato. Contudo, o centro do debate passou a ser a questão do saneamento e da higiene, sendo que a solução estaria na eficiência do trabalho.

                Pode-se dizer que a partir desses debates, começa a se desenvolver uma ideologia sanitarista no Brasil, mais especificamente sobre o sanitarismo rural, que se seguiu ao sanitarismo urbano. Até 1915, as políticas sanitaristas se limitavam às cidades e o sertão permanecia esquecido. Começa a existir, então, uma preocupação em revelar a força simbólica do movimento pelo saneamento dos sertões, enquanto ideologia de construção nacional. Então, durante o período republicano do Brasil, a produção literária passou a ser marcadamente nacionalista, de modo que o objetivo era construir uma identidade nacional.

            Segundo Luiz de Castro Santos, nesse contexto, existiam duas correntes de pensamento nacionalista, “uma sonhava com um Brasil “moderno” e atraía intelectuais que viam no crescimento e progresso das cidades brasileiras os sinais da conquista da civilização. A outra corrente preocupava-se em recuperar no interior do país as raízes da nacionalidade, e buscava integrar o sertanejo ao projeto de construção nacional.”  (SANTOS, 1985). Pode-se dizer que Monteiro Lobato passou por essas duas correntes, visto que seu projeto modernizador visava a modernização do país e que, mais tarde, passou a valorizar questões que tratavam dos sertanejos.

               Essa questão do sertão teve início com Euclides da Cunha, com o livro “Os Sertões”. O autor foi contra a corrente intelectual que prezava pela cultura europeia, pois tal corrente fugia da própria nacionalidade, visto que se fundamentava em costumes e ideais europeus. Essa temática do isolamento e atraso do sertanejo também se revelou nas obras de Monteiro Lobato, que lutou pela modernização do país e, desde 1915, passou a tratar em suas obras sobre a preocupação com as condições de vida da população rural.

                    Como já mencionado, as primeiras obras de Lobato eram focadas nos defeitos da “raça” como responsáveis por supostas características das populações rurais, como apatia e incapacidade para o trabalho. No entanto, por volta de 1918, segundo o crítico Agripino Grieco, Lobato começa a apresentar uma nova face em suas obras, na qual revê suas antigas posições e já não culpa o sertanejo por sua pobreza e nem o rotula como antes, pelo contrário: ele passa a entender o sertanejo como fonte de grande parcela da riqueza nacional, mesmo estando doente. Lobato estava convicto de que “a doença é a origem de todos os males do país. A doença, não permitindo ao homem brasileiro desenvolver toda a sua potencialidade física e mental, estava criando uma raça de fracos, incapazes para o trabalho eficiente” (CAMPOS, 1986, p.36).

                Lobato passa a ter como problemática de seus textos as doenças endêmicas, e passa a escrever diversos artigos com o intuito de divulgar as ideias sobre o saneamento nacional, publicados no jornal Estado de S. Paulo. Sua preocupação era, em parte, com as condições de saúde do caipira, de forma que o saneamento rural era a questão nacional por excelência. A questão fundamental para esses autores que constituíam essa corrente nacionalista era fazer com que os intelectuais começassem a olhar para as endemias do sertão, pois, assim, se construiria uma identidade nacional, de fato. Essa integração dos sertões ao litoral representava um grande desafio para que houvesse o fortalecimento da nacionalidade, pois a população doente significa uma raça fraca, e uma raça fraca geraria uma nação sem futuro.

  Lobato e Euclides da Cunha

                 Lobato e Euclides da cunha tinham muito em comum quando tratamos de projetos para o Brasil. Euclides da Cunha era ligado a temas de engenharia, bem como Monteiro Lobato, e também idealizou diversos projetos que visavam a modernização do país, procurando integrar regiões como o sertão ao litoral. Euclides da Cunha, com a sua obra Os Sertões inspira muitos outros autores a escreverem sobre a causa nacionalista/regionalista dessa época. No artigo “A conquista do espaço: sertão e fronteira no pensamento brasileiro”, a socióloga Lucia Lippi afirma que “a denúncia do descaso e irresponsabilidade das elites para com o sertanejo do norte, inaugurada por Euclides, teria sido continuada por Monteiro Lobato ao denunciar o abandono do sertanejo do sul, o caipira, caricaturado na figura do Jeca Tatu.” (LIPPI, 1998)

               No início da década de 1920 se prospera essa literatura voltada à temática regionalista, em que se tratava sobre a cultura da vida no campo e sobre a figura caipira. Esse regionalismo abrange, inclusive, cinemas e jornais, trazendo à tona a realidade dos sertões para as pessoas da cidade. Havia, na literatura brasileira uma visão sobre o sertão pelo menos sob três perspectivas (CRISTÓVÃO, 1993-94). A primeira é o sertão como paraíso, expressada no romantismo. Trata-se sobre um paraíso perdido em que tudo era perfeito, belo e justo e cuja linguagem retrataria uma pureza original a ser apreciada e preservada. A segunda forma associa o sertão ao inferno. O destempero da natureza, o desespero dos que por ele perambulam (retirantes, cangaceiros, volantes, beatos), a violência como código de conduta e o fatalismo são as principais características dessa visão. Euclides da Cunha é um dos representantes desta leitura do sertão como inferno, ainda que sua explicação seja de ordem político-cultural. Por fim, a visão do sertão como o purgatório. Pode-se relacionar essa perspectiva com as obras de Guimarães Rosa, em que o sertão é um lugar de travessia, definido pelo exercício da liberdade e pela dramaticidade da escolha de cada um. O sertão é visto como um lugar de penitência e de reflexão.

             Euclides da Cunha, quando trata do sertão, transmite a sensação de se sentir estrangeiro dentro de seu próprio país. Diante das diferenças entre o ambiente em que vivia e do sertão, ele questiona a existência de um Brasil único, passando a duvidar da possibilidade de existir uma nação com tantas diferenças dentro dela mesma. Euclides pensa, então, que para unificar a nação, seria necessário a unificação desses diferentes ritmos civilizatórios, ou seja, o importante é colocar lado a lado o sertão e o litoral, não importando a heterogeneidade de raças. Euclides vê o sertanejo como retrógrado e não como degenerado. Tal atraso se deve ao abandono a que foi relegado e não aos condicionamentos e determinações de ordem genética. A civilização, portanto, seria capaz de sincronizar os tempos sociais do sertão e do litoral. A ação governamental resolveria a diferença entre tempos sociais, levando modernidade aos espaços atrasados, tornando-os civilizados. Sua posição como engenheiro e cartógrafo, cuja missão é trazer progresso ao Brasil se revela em grande parte de suas obras.  “Na primeira parte de Os sertões, Euclides mostra o sertão como um território estranho, um vazio, um hiato, um espaço em branco a ser preenchido. Na indiferença dos brasileiros e do governo por sua própria terra estaria a raiz desta ignorância e deste desconhecimento do território sertanejo. O sertão seria mesmo a prova da existência de fronteiras internas que ameaçavam a nacionalidade. Para Euclides era mister tornar a totalidade do espaço territorial um espaço nacional.” (LIPPI, 1998).

                Além de se preocupar em buscar conhecer o sertão, Euclides também fez expedições à Amazônia, que renderia no livro Um paraíso perdido, o qual não foi concluído. Euclides desejava integrar o sertão à vida nacional. Tal processo deveria começar com estudos de campo nas regiões, buscando compreender os causadores da desordem climática.  O autor também defendia um plano de combate à seca pela construção de pequenos e numerosos açudes capazes de transformar o deserto em rica região agrícola. Na Amazônia, Euclides propôs a recuperação do rio Purus, a construção de uma estrada de ferro – a Transacreana – que seria capaz de espalhar frentes de colonização e proteger as fronteiras do país. Neste sentido, Euclides pode ser visto como um precursor de idéias e projetos que foram implementados, com ou sem sucesso, anos mais tarde, como a Madeira-Mamoré, o IBGE, o DNOCS e, até mesmo, a Calha-Norte. (LIPPI, 1998).

                  Diante desse panorama, pode-se notar que a trajetória de Euclides da Cunha muito se assemelha à de Monteiro Lobato, visto que os dois se interessavam por temas como a modernização do país fundamentados na integração do sertão ao litoral. Ambos idealizaram, para o país, projetos voltados à engenharia. Há também em comum entre ambos uma frustração com o descaso do governo em relação ao progresso. No caso de Euclides, em relação à descrença na República e na política, e no caso de Lobato, em relação à pouca vontade do governo em investir no petróleo. Assim, acreditamos que nesse contexto regionalista, envolvendo literatura e projetos visando o progresso, há ecos do projeto modernizador de Euclides no projeto de Lobato.

Lobato e Jorge de Lima

               Dentre as produções literárias  pertencentes ao grupo do chamado “romance de 30”, o romance de  Jorge de Lima Calunga publicado em 1935, pode ser considerado um deles. Pelo fato de, a obra seguir a mesma linha temática das produções representativas desta época, do qual a principal característica é a denúncia social. No romance de Jorge de Lima, tais características estão representadas ao serem abordadas pelo autor, através do seu protagonista (Lula Bernardo), questões como, o colonialismo da época (do qual o autor faz uma crítica), a pobreza e o abandono do trabalhador nordestino pelas autoridades locais.

                  Pode-se dizer que Lobato e Jorge de lima compartilhavam do mesmo ideário nesse período, pois ambos acreditavam que a saída para a atual situação de decadência e de abandono do interior (Lobato interior paulista e Lima interior nordestino), seria através da educação e  da mudança das formas de trabalho. Mas, para os  escritores, primeiro  era necessário transformar o meio, reverter as más condições de higienes, acabar com a lama (Lima) e com as doenças provindas dela e, só assim, seria possível educar e implementar as novas técnicas de trabalho.Pois, nesse período ambos  acreditavam que o causador dos males  do caboclo era o meio onde vivia, meio esse, negligenciado pelas autoridades, principalmente com relação ao saneamento básico, no qual a falta deste, era o principal  causador da proliferação de doenças endêmicas, como exemplo, o amarelão. Ou seja, a pobreza e o mal que arruinava a disposição para o trabalho eram consequências do meio ambiente físico.

            A educação seria um dos meios para reverter tais condições do caboclo, informando-o sobre os riscos de viver nessas condições. Como exemplo, a seguinte passagem do romance; “Lula se afobava dando explicações, contando coisas de higiene, como seriam contaminados pelo chão, como decairiam doentes, sem reação, empalemados, transformados nesse pessoal bucho-de-lama das propriedades vizinhas. Era preciso que mudassem de hábito e uma população forte surgiria dali, a terra se transformaria, conheceriam melhor a vida” prosseguindo, “ Lula continuava a pregação, ensinando como a maleita se transmitia, como o mal arruinava a vontade, diminuindo a capacidade de trabalho” (LIMA,1935, p.36).

           Considerado um romance regionalista, por retratar uma cidade do interior nordestino e verossímil, devido ao fato dos acontecimentos narrados serem semelhantes à realidade,  o  romance  mostra a relação do personagem principal com o meio natural e social, os problemas da seca, da miséria, das endemias e da ignorância (povo) presenciados por ele. Isto se caracteriza pelo fato do autor ter presenciado essa realidade antes de transportá-la para a ficção. No romance, o personagem principal demonstra ao longo da narrativa o sentimento de inconformidade para com o presente, com a situação que ele encontrou na cidade natal com relação aos modos de trabalho com a falta de higiene dos caboclos e com a indiferença em relação às novas “técnicas” de   trabalho. Para o personagem era preciso tirar os homens da lama e fazer com que eles trabalhassem com algo mais “limpo”, com  a criação de carneiros, por exemplo.  O seu engajamento para a criação de uma nova realidade, aos poucos vai se perdendo, ao se dar conta, da impossibilidade  de mudança dos  hábitos do caboclo.

Conclusão

              Inicialmente, o objetivo deste trabalho era fazer uma apresentação de Monteiro Lobato e seu projeto de modernização do Brasil a partir da análise de seu livro Urupês, mais especificamente dos dois últimos contos “Velha Praga” e “Urupês”. No entanto, ao longo do processo de pesquisa sobre a bibliografia do autor, optamos por mudar, em certa medida, o foco de análise, pois percebemos que, para compreender a crítica do autor, era preciso entender por completo o seu projeto de modernização, que se fundamentava em três aspectos: economia, cultura e eugenia. Em Urupês, Lobato inicia, de fato, sua contribuição com a literatura sanitarista do sertão, que visa apresentar e tratar os problemas relacionados ao campo e não mais à cidade. No entanto, sua visão acerca do caboclo nessa obra, que data 1918, se modifica ao longo de suas produções com essa temática.

                No início da pesquisa ficou claro que teríamos que fazer uma distinção entre as obras destinadas ao público infantil e as obras adultas do autor. Visto que, o nosso objeto de estudo pertencia à produção adulta de Lobato. Mas, durante o processo de pesquisa algumas das produções infantis eram resultados e até mesmo reproduções do pensamento do escritor. Do qual a associação entre infantil e adulto  se fazia  necessária. É inquestionável que, Monteiro Lobato é mais conhecido pelas suas produções infantis nos dias de hoje, o mundo fantástico do Sítio do Picapau Amarelo tem atravessado gerações, com suas histórias que aguçam a imaginação do leitor e hoje a série é a maior representante da literatura infantil no Brasil. Entretanto, mesmo nas obras infantis a presença do racismo se faz presente através do tratamento dado aos personagens negros e dos termos preconceituosos contidos em alguns dos livros, o que gerou e ainda gera discussões sobre o uso de suas obras no ambiente escolar.

                   Acreditamos que, ambas produções de Lobato devem ser lidas e analisadas à luz do seu contexto histórico de produção, ou seja, elas não devam ser lidas separadamente do seu autor. Pois é importante compreender o “momento histórico”, o contexto intelectual, o compartilhamento de ideias lançadas pelo autor. Por outro lado, entendemos que o contexto não é justificativa ou conformidade para as ideologias racista do autor. Visto que, nos dias de hoje o preconceito racial é bastante marcado em nossa sociedade e uma produção literária que classifica o negro, o caboclo, o índio como raças inferiores, está totalmente em desacordo com os princípios democráticos do século XXI.

Referências Bibliográficas

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CHIARADIA, Kátia. “Edição de textos fidedigna e anotada das cartas trocadas entre Monteiro Lobato e Charles Frankie (1934-1937): Edição e estudo da correspondência entre Monteiro Lobato, Charles Frankie e alguns companheiros da Campanha Petrolífera, como Edson de Carvalho.” Dissertação de Doutorado. Campinas: IEL/UNICAMP, 2016.

CHIARADIA, Kátia. “O poço do Visconde: o faz-de-conta quase de verdade”. In: LAJOLO, M.; CECCANTINI, J. L. (org.). Monteiro Lobato livro a livro. São Paulo: Ed. Unesp, 2009.

CRISTÓVÃO, Fernando dez.-jan.-fev. 1993-94 “A transfiguração da realidade sertaneja e a sua passagem a mito”. Revista USP, nº 20, pp. 29-41.

LAJOLO, Marisa. “A figura do negro em Monteiro Lobato”. Unicamp/IEL, 1998.

LIPPI, Lucia. ’”A conquista do espaço: sertão e fronteira no pensamento brasileiro’.”

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LOBATO, Monteiro. “O Problema Vital”. São Paulo: Editora Globo, 2010.

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SANTOS, Luiz Antonio de Castro. O pensamento sanitarista na Primeira República: Uma ideologia de construção da nacionalidade. Dados. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v.28, n.2, p.193-210, 1985.

SCHWARZ, Roberto. Os pobres na Literatura brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

Padrão

Balanço Bibliográfico/ Contexto Intelectual

Introdução

Nesta breve pesquisa sobre a obra e o projeto modernizador – fundamentado em três aspectos, Economia, Cultura e Eugenia, que irão ser abordados a seguir – que Monteiro Lobato tinha para o Brasil, notamos que seu pensamento sofreu algumas mudanças ao decorrer do tempo. O autor demonstrava grande preocupação com o avanço do país  desde 1915. Suas obras revelavam a preocupação com as condições de vida das populações rurais, bem como outros autores, como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Guimarães Rosa.

No entanto, as primeiras obras de Lobato focam nos defeitos da raça como responsáveis por supostas características das populações rurais brasileiras, como apatia, indolência, incapacidade para o trabalho, etc. Mais tarde, como aponta o crítico literário Agrupino Grieco, Lobato apresenta uma nova fase, na qual revê suas antigas posições, por volta de 1918. Nessa fase, o autor já não culpa o trabalhador o rural por sua pobreza, nem o rotula como incapaz. Pelo contrário: é dele, que mesmo doente, se extrai grande parcela da riqueza nacional.

A seguir, traçamos um panorama a partir das bases que fundamentam esse projeto modernizador que Monteiro Lobato tinha para o Brasil. Depois, trataremos sobre a questão da mudança de pensamento de Lobato e como isso se refletiu em sua literatura, bem como a identificação com  pensamento de outros autores da corrente nacionalista.

Economia

Monteiro Lobato era um grande interessado pela modernização do Brasil. Esse interesse se deu com a sua estadia nos Estados Unidos, de 1927 a 1931, quando trabalhou como adido comercial nomeado pelo presidente Washington Luís. Na sua volta ao Brasil, Lobato se envolve com a questão do petróleo e cria, em 1932, a “Companhia Petróleo Nacional” (CPN), em parceria com Edson de Cardoso, e a “Companhia Petróleos do Brasil” (CBP). A partir disso, Lobato se dedica completamente a essa causa.

O autor levou toda essa questão à literatura, pois a via como principal arma de divulgação de informação, fazendo uma trilogia sobre Petróleo. Em 1935, ele traduziu, juntamente com Charles Frankie, “A luta pelo petróleo”, de Essad Bey. Em 1936 escreveu “O escândalo do petróleo” e, em 1937, escreveu um livro infantil, “O poço do Visconde”.

Boa parte da sua relação com a causa petrolífera está documentada nas cartas trocadas com o engenheiro de perfurações, Charles Frankie, no período de 1934 a 1937. Em sua tese de doutorado, Kátia Chiaradia traz à tona esses bastidores do projeto de Monteiro Lobato. Além disso, na análise das cartas, Kátia mostra como Lobato mesclava seus ideais políticos com sua literatura, trazendo, em vários momentos, situações do real para a ficção.
Conforme afirma Chiaradia, em sua tese, “Lobato e Frankie discutiram literatura em inúmeros aspectos, como o que constitui uma boa tradução, ou ainda o que faz um livro ser bem editado e bem distribuído.” (CHIARADIA, 2016). Os exemplares de A luta do petróleo, cuja tradução foi lançada em 1935, eram tidos por eles como propulsores de uma nova Era para as pesquisas petrolíferas. Em carta datada de 01/05/35, Lobato apresenta sua tese de que  “o livro vai abrir os olhos dessa gente”:

“Acabei A Luta do Petróleo. O editor [daqui] pagará 500 marcos ao editor alemão, de direitos, e nós daremos nosso trabalho de tradução de graça em troca de 1000 exemplares para distribuirmos pelo congresso federal e estadual e mais gente do governo que não tem a menor ideia do que seja o petróleo. […] Mas tudo só depois de sair o livro. O livro é que vai abrir os olhos dessa gente, mostrando a significação do petróleo.”

Segundo Kátia “ao aceitar exemplares do livro como remuneração pelo seu trabalho na tradução d’ “A Luta”, Monteiro Lobato permite-nos ressaltar ao menos duas de suas características como editor: a confiança nos livros como objeto de militância e sua noção de equivalência de valores financeiros “livro x trabalho”. (CHIARADIA, 2016)

 Dentre os seus trabalhos como editor, Lobato foi  tradutor e divulgador dos livros de Henry Ford no Brasil, e durante esse trabalho, ele passou a ter conhecimento da proposta fordista  em relação à técnica de trabalho, e também em relação à visão de mundo defendido por esta abordagem.  Lobato passou a ver esse modelo como uma solução para o atraso material do país, além da elaboração de uma forma de sujeição das camadas populares ( tendo em vista o movimento grevista ocorrido em 1920, no qual Lobato presenciou o movimento dentro da sua editora).

Além de confirmar as suas ideias em relação ao atraso brasileiro em comparação ao “progresso” americano, e da elaboração de estratégia para vencê-lo (campanha do petróleo), em sua estadia nos Estados Unidos, Lobato também adquiriu outras ideias relacionadas ao projeto de  modernização do país, centrada na questão do trabalho. Conforme Campos (1986), no livro “A república do picapau amarelo, nos textos do livro “O problema Vital” (1918), são, “reflexões sobre a questão do trabalho nas quais desponta uma consciência da  necessidade de se modernizar as relações de trabalho no país, através da melhoria das condições de vida da população rural” , sendo assim, a luta pela industrialização do país, fundamentado no modelo fordista. Lobato acreditava que, o trabalho produtivo e eficiente trazia junto a riqueza e consequentemente a eliminação da pobreza.

Cultura

No artigo “Monteiro Lobato e o racismo”, Adilson Miguel afirma que “muitos estudiosos tendem a considerar mais relevantes sua atuação como homem público do que como escritor. O Trabalho como editor e divulgador de livros é em geral mais valorizado do que sua obra literária”. Contudo, outros autores contra argumentam que o reconhecimento do escritor se constituiu principalmente em suas produções destinadas ao público infantil, ou ainda, segundo Benjamin Abdala Junior, é possível considerar as duas coisas: “(Monteiro Lobato) consagrou-se como nosso maior escritor infanto-juvenil e promoveu uma revolução editorial no país”.

 Antes de se constituir como um autor literário, Lobato se dedicava aos trabalhos jornalísticos, intensificado ainda mais em 1915, com a criação, juntamente com seus sócios, da Revista do Brasil, cuja proposta editorial fundamentava-se  no nacionalismo, no qual tal projeto vinha de encontro com o seu ideário.  No ano de 1920,  Lobato fundou a Monteiro Lobato e Cia, e é nesse período que ele se estabelece no o mundo editorial, promovendo a revolução do mesmo. Como editor, seguindo a tendência  editorial, Lobato começa a se dedicar às publicações do gênero didático, de uso obrigatório nas escolas. Em 1921,  lançou o livro “Narizinho arrebitado”, que, posteriormente, é adotado pelo governo de São Paulo para uso no segundo ano das escolas públicas, conquistando a crítica e professores. Com o sucesso adquirido pela primeira publicação no ramo da literatura infantil, como também, pela primeira publicação (autoral) da Monteiro Lobato e Cia, Lobato passou a ver o Livro como uma mercadoria, reformulado os padrões gráficos, com o acréscimo de ilustrações e de cores mais chamativas, “tornando o produto mais cativante aos olhos do consumidor” (AZEVEDO, CAMARGOS, SACCHETTA, 1998, p. 131  ).

            Frente a isso, Lobato passa a idealizar que, através dos livros infantis, seria possível educar as crianças com uma nova mentalidade nacional. Após o contato com algumas fábulas de escritores estrangeiros, Lobato passa a querer recriar as histórias de acordo com o seus interesses. No ano de 1922 , lança o livro “Fábulas”, com curtas narrativas,  que, ao final, traziam uma moral com o objetivo de formação intelectual das crianças. Segundo a opinião do autor:

“As fábulas constituem um alimento espiritual correspondente ao leite na primeira infância. Por intermédio delas a moral, que não é outra coisa mais que a própria sabedoria da vida acumulada na consciência da humanidade, penetra na alma infante, conduzida pela loquacidade inventiva da imaginação. Esta boa fada mobiliza a natureza, dá fala aos animais, às árvores, às águas e tece com esses elementos pequeninas tragédias donde ressurte a “moralidade”, isto é, a lição da vida. O maravilhoso é o açúcar que disfarça o medicamento amargo e torna agradável a sua ingestão” (LOBATO, 1922, p.171).

Eugenia

Em suas primeiras produções literárias, Monteiro Lobato já mostrava a sua preocupação frente ao projeto de modernização do Brasil, em relação à inferioridade do povo brasileiro e a mistura de raça responsáveis, segundo ele, pelo atraso do país criando um tipo de raça incapaz de se desenvolver. Simpatizante do pensamento social determinista, de Le Bons e condicionado pela imagem racista das “elites cultas” do país no final do século XIX e início do século XX,  Lobato defendia a superioridade da raça branca em relação às outras. Esse pensamento era exposto explicitamente em suas obras adultas e infantis. Segundo Lajolo (1998), no artigo “A figura do negro em Monteiro Lobato”, “similares má-criações têm servido de munição para leituras que tomam o xingamento como manifestação explícita do racismo de Lobato”, no mesmo artigo, afirma “ na denúncia bem intencionada dos xingamentos de Emília, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem”.

No livro “Urupês” (1918), no último conto, Monteiro Lobato apresenta o personagem Jeca Tatu, sendo este a representação dos caboclos que viviam no interior. O autor pensa esse tipo como pessoas impenetráveis ao progresso, pois são pessoas que fundamentam de suas crenças à medicina no misticismo e na cultura popular. Lobato vê de maneira racista a população brasileira, sempre colocando o negro em posição inferior aos brancos.

Pode-se notar isso no livro “As histórias de tia Nastácia” (1937), no qual Emília, Narizinho e Pedrinho questionam a todo tempo as histórias populares que tia Nastácia lhes conta. Essa visão do autor fica evidente em trechos do livro como o que se segue:

“ – Sim – disse Dona Benta –  nós não podemos exigir do povo um apuro artístico dos grandes escritores. O povo… o que é o povo? são essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.” (pag. 110).

Quando Tia Nastácia se coloca como contadora de histórias, ela “transfere para o lugar de contadora de histórias a inferioridade sócio cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso…), por contar histórias que vêm da tradição oral não desempenha função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna á de seus ouvintes, consumidores e exigentes da cultura escrita (…)” (LAJOLO, 1998). No entanto, quando Dona Benta assume a posição de contadora de histórias, no livro “Peter Pan” (1930) e “D.Quixote das crianças” (1936), ela conta as histórias que lê em livros estrangeiros a partir de um espaço hegemônico em relação aos seus ouvintes, visto que é alguém adulta e notoriamente mais experiente.

Tendo em vista os problemas sociais do país, principalmente em relação ao saneamento básico, Lobato passa a se questionar se o real “problema” dos caboclos eram antes  em função do meio no qual viviam, do “subdesenvolvimento” do país que gera a fome, a doença e a pobreza, e com isso, ele repensa o seu julgamento  no livro “O problema vital” (1918 ), no qual diz, “O  caipira não é assim. Está assim”.

Jeca Tatu: três metamorfoses

 De acordo com Lajolo (1983), Lobato refine a caracterização do “Jeca tatu” no curso das décadas de 1990 a 1940; o Jeca Tatu, Jeca Tatuzinho e Zé Brasil. Em 1914, ano do lançamento do artigo “urupês”, Lobato apresenta pela primeira vez a figura anti-heróica do personagem. Jeca tatu é o retrato do homem do interior, sinônimo do caipira; preguiçoso, inadaptável à civilização, faz uso da terra apenas para a subsistência, pois é incapaz de se desenvolver economicamente. Classificando-o como “Praga nacional”, neste   período, Lobato acreditava que a situação socioeconômica do país se deve exclusivamente ao próprio caboclo. Dez anos depois, o mesmo Jeca retorna, mas agora, como vítima das enfermidades que assolavam o território brasileiro e pelo descaso do Estado para com suas necessidades. Agora, com o nome de Jeca tatuzinho, ele passa a ser usado como ferramenta de denúncia e de campanha em favor ao saneamento, além de educar e esclarecer à população sobre as doenças locais, dentre elas: o amarelão. Segundo Lajolo(1983), o Jeca passa a ser apresentado como vítima por Lobato: “opilado pela verminose, fraco, anêmico, os males desta Jeca dos anos vinte  não começam na preguiça nem na falta de disposição para o trabalho: a desnutrição e a precariedade de seu estado de saúde é que desembocam na pouca produtividade do camponês itinerante” ( LAJOLO,1983, p.101).  Dentre as campanhas para combater esta moléstia foi criado e difundido por uma empresa  farmacêutica,  o “Tônico Fontoura”,  remédio milagroso contra as verminoses,  no qual promovia a imagem do Jeca tatuzinho, curado e convertido pelos hábitos de higiene, que com ajuda da ciência  tornava-se um homem trabalhador e civilizado. Para Lajolo (1983), “com a recuperação da saúde, o Jeca adquire um nível exemplar de cidadania: assumindo a bandeira de seu narrador, o curado e enriquecido caboclo leva, entre a carga de seu caminhão, grande estoque de produtos Fontoura, com os quais redime a saúde nacional e, por tabela, a situação do camponês brasileiro” ( LAJOLO, 1983, p.102).

 A terceira aparição do Jeca ocorre em  1947,  conhecido agora por Zé Brasil, Lobato rebatiza o personagem a partir de uma mudança de pensamento devido a aproximação para com o Partido Comunista Brasileiro. A relação com o personagem muda, o texto “didatiza-se, enrijece e perde o jogo de cintura” (LAJOLO,1983, p.102). Alienado Zé Brasil, discute com um interlocutor anônimo a situação precária do qual vive, em decorrência do sistema econômico agrário e pelo latifúndio no país.Com estas caracterizações feita à cima é possível perceber as “variantes” do mesmo personagem, Para Lajolo (1983), este “itinerário” só é possível devido aos problemas sociais brasileiro do período.   

     


Contexto Intelectual  

A partir da mudança de entendimento com relação ao caboclo versus o meio, Lobato passa a compartilhar do mesmo pensamento de alguns intelectuais da época, dentre eles, Euclides da Cunha e Lima Barreto, em oposição aos modernistas,  eles usavam a literatura como um instrumento de denúncia social. Inseridos em um contexto nacionalista, tais escritores passam a refletir sobre a real situação “do homem trabalhador do campo” (CAMPOS, 1986, p.35). Apesar de o caboclo  não ser mais o principal “motivo” do atraso do país, o pensamento social darwinista e as ideias racistas ainda persistiam entre os intelectuais, principalmente em Lobato. Contudo, o centro do debate passou a ser a questão do saneamento e da higiene, sendo que a solução estaria na eficiência do trabalho.

Pode-se dizer que a partir desses debates, começa a se desenvolver uma ideologia sanitarista no Brasil, mais especificamente sobre o sanitarismo rural, que se seguiu ao sanitarismo urbano. Até 1915, as políticas sanitaristas se limitavam às cidades e o sertão permanecia esquecido. Começa a existir, então, uma preocupação em revelar a força simbólica do movimento pelo saneamento dos sertões, enquanto ideologia de construção nacional. Então, durante o período republicano do Brasil, a produção literária passou a ser marcadamente nacionalista, de modo que o objetivo era construir uma identidade nacional.

Segundo Luiz de Castro Santos, nesse contexto, existiam duas correntes de pensamento nacionalista, “uma sonhava com um Brasil “moderno” e atraía intelectuais que viam no crescimento e progresso das cidades brasileiras os sinais da conquista da civilização. A outra corrente preocupava-se em recuperar no interior do país as raízes da nacionalidade, e buscava integrar o sertanejo ao projeto de construção nacional.”  (SANTOS, 1985). Pode-se dizer que Monteiro Lobato passou por essas duas correntes, visto que seu projeto modernizador visava a modernização do país e que, mais tarde, passou a valorizar questões que tratavam dos sertanejos.

Essa questão do sertão teve início com Euclides da Cunha, com o livro “Os Sertões”. O autor foi contra a corrente intelectual que prezava pela cultura europeia, pois tal corrente fugia da própria nacionalidade, visto que se fundamentava em costumes e ideais europeus. Essa temática do isolamento e atraso do sertanejo também se revelou nas obras de Monteiro Lobato, que lutou pela modernização do país e, desde 1915, passou a tratar em suas obras sobre a preocupação com as condições de vida da população rural.

Como já mencionado, as primeiras obras de Lobato eram focadas nos defeitos da “raça” como responsáveis por supostas características das populações rurais, como apatia e incapacidade para o trabalho. No entanto, por volta de 1918, segundo o crítico Agripino Grieco, Lobato começa a apresentar uma nova face em suas obras, na qual revê suas antigas posições e já não culpa o sertanejo por sua pobreza e nem o rotula como antes, pelo contrário: ele passa a entender o sertanejo como fonte de grande parcela da riqueza nacional, mesmo estando doente. Lobato estava convicto de que “a doença é a origem de todos os males do país. A doença, não permitindo ao homem brasileiro desenvolver toda a sua potencialidade física e mental, estava criando uma raça de fracos, incapazes para o trabalho eficiente” (CAMPOS, 1986, p.36).

Lobato passa a ter como problemática de seus textos as doenças endêmicas, e passa a escrever diversos artigos com o intuito de divulgar as ideias sobre o saneamento nacional, publicados no jornal Estado de S. Paulo. Sua preocupação era, em parte, com as condições de saúde do caipira, de forma que o saneamento rural era a questão nacional por excelência. A questão fundamental para esses autores que constituíam essa corrente nacionalista era fazer com que os intelectuais começassem a olhar para as endemias do sertão, pois, assim, se construiria uma identidade nacional, de fato. Essa integração dos sertões ao litoral representava um grande desafio para que houvesse o fortalecimento da nacionalidade, pois a população doente significa uma raça fraca, e uma raça fraca geraria uma nação sem futuro.

Lobato e Euclides da Cunha

Lobato e Euclides da cunha tinham muito em comum quando tratamos de projetos para o Brasil. Euclides da Cunha era ligado a temas de engenharia, bem como Monteiro Lobato, e também idealizou diversos projetos que visavam a modernização do país, procurando integrar regiões como o sertão ao litoral. Euclides da Cunha, com a sua obra Os Sertões inspira muitos outros autores a escreverem sobre a causa nacionalista/regionalista dessa época. No artigo “A conquista do espaço: sertão e fronteira no pensamento brasileiro”, a socióloga Lucia Lippi afirma que “a denúncia do descaso e irresponsabilidade das elites para com o sertanejo do norte, inaugurada por Euclides, teria sido continuada por Monteiro Lobato ao denunciar o abandono do sertanejo do sul, o caipira, caricaturado na figura do Jeca Tatu.” (LIPPI, 1998)

No início da década de 1920 se prospera essa literatura voltada à temática regionalista, em que se tratava sobre a cultura da vida no campo e sobre a figura caipira. Esse regionalismo abrange, inclusive, cinemas e jornais, trazendo à tona a realidade dos sertões para as pessoas da cidade. Havia, na literatura brasileira uma visão sobre o sertão pelo menos sob três perspectivas (CRISTÓVÃO, 1993-94). A primeira é o sertão como paraíso, expressada no romantismo. Trata-se sobre um paraíso perdido em que tudo era perfeito, belo e justo e cuja linguagem retrataria uma pureza original a ser apreciada e preservada. A segunda forma associa o sertão ao inferno. O destempero da natureza, o desespero dos que por ele perambulam (retirantes, cangaceiros, volantes, beatos), a violência como código de conduta e o fatalismo são as principais características dessa visão. Euclides da Cunha é um dos representantes desta leitura do sertão como inferno, ainda que sua explicação seja de ordem político-cultural. Por fim, a visão do sertão como o purgatório. Pode-se relacionar essa perspectiva com as obras de Guimarães Rosa, em que o sertão é um lugar de travessia, definido pelo exercício da liberdade e pela dramaticidade da escolha de cada um. O sertão é visto como um lugar de penitência e de reflexão.

Euclides da Cunha, quando trata do sertão, transmite a sensação de se sentir estrangeiro dentro de seu próprio país. Diante das diferenças entre o ambiente em que vivia e do sertão, ele questiona a existência de um Brasil único, passando a duvidar da possibilidade de existir uma nação com tantas diferenças dentro dela mesma. Euclides pensa, então, que para unificar a nação, seria necessário a unificação desses diferentes ritmos civilizatórios, ou seja, o importante é colocar lado a lado o sertão e o litoral, não importando a heterogeneidade de raças. Euclides vê o sertanejo como retrógrado e não como degenerado. Tal atraso se deve ao abandono a que foi relegado e não aos condicionamentos e determinações de ordem genética. A civilização, portanto, seria capaz de sincronizar os tempos sociais do sertão e do litoral. A ação governamental resolveria a diferença entre tempos sociais, levando modernidade aos espaços atrasados, tornando-os civilizados. Sua posição como engenheiro e cartógrafo, cuja missão é trazer progresso ao Brasil se revela em grande parte de suas obras.  “Na primeira parte de Os sertões, Euclides mostra o sertão como um território estranho, um vazio, um hiato, um espaço em branco a ser preenchido. Na indiferença dos brasileiros e do governo por sua própria terra estaria a raiz desta ignorância e deste desconhecimento do território sertanejo. O sertão seria mesmo a prova da existência de fronteiras internas que ameaçavam a nacionalidade. Para Euclides era mister tornar a totalidade do espaço territorial um espaço nacional.” (LIPPI, 1998).  

Além de se preocupar em buscar conhecer o sertão, Euclides também fez expedições à Amazônia, que renderia no livro Um paraíso perdido, o qual não foi concluído. Euclides desejava integrar o sertão à vida nacional. Tal processo deveria começar com estudos de campo nas regiões, buscando compreender os causadores da desordem climática.  O autor também defendia um plano de combate à seca pela construção de pequenos e numerosos açudes capazes de transformar o deserto em rica região agrícola. Na Amazônia, Euclides propôs a recuperação do rio Purus, a construção de uma estrada de ferro – a Transacreana – que seria capaz de espalhar frentes de colonização e proteger as fronteiras do país. Neste sentido, Euclides pode ser visto como um precursor de idéias e projetos que foram implementados, com ou sem sucesso, anos mais tarde, como a Madeira-Mamoré, o IBGE, o DNOCS e, até mesmo, a Calha-Norte. (LIPPI, 1998).

Diante desse panorama, pode-se notar que a trajetória de Euclides da Cunha muito se assemelha à de Monteiro Lobato, visto que os dois se interessavam por temas como a modernização do país fundamentados na integração do sertão ao litoral. Ambos idealizaram, para o país, projetos voltados à engenharia. Há também em comum entre ambos uma frustração com o descaso do governo em relação ao progresso. No caso de Euclides, em relação à descrença na República e na política, e no caso de Lobato, em relação à pouca vontade do governo em investir no petróleo. Assim, acreditamos que nesse contexto regionalista, envolvendo literatura e projetos visando o progresso, há ecos do projeto modernizador de Euclides no projeto de Lobato.

Referências Bibliográficas

ADILSON, Miguel. “Lobato e o racismo: Desvios e equívocos no debate”. Revista Emília. Fevereiro,2013.

AZEVEDO, Carmen Lucia de. “Monteiro Lobato: furação na Botocúndia”. In: Carmen Lucia de Azevedo, Marcia Mascarenhas de Rezende Camargos, Vladmir Saccheta (org.) São Paulo: Editora SENAN São Paulo, 1998, 2° Ed.

CAMPOS, Almeida Luiz Vieira de. “A república do picapau amarelo: uma leitura de Monteiro Lobato”. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

CHIARADIA, Kátia. “Edição de textos fidedigna e anotada das cartas trocadas entre Monteiro Lobato e Charles Frankie (1934-1937): Edição e estudo da correspondência entre Monteiro Lobato, Charles Frankie e alguns companheiros da Campanha Petrolífera, como Edson de Carvalho.” Dissertação de Doutorado. Campinas: IEL/UNICAMP, 2016.

CHIARADIA, Kátia. “O poço do Visconde: o faz-de-conta quase de verdade”. In: LAJOLO, M.; CECCANTINI, J. L. (org.). Monteiro Lobato livro a livro. São Paulo: Ed. Unesp, 2009.

CRISTÓVÃO, Fernando dez.-jan.-fev. 1993-94 “A transfiguração da realidade sertaneja e a sua passagem a mito”. Revista USP, nº 20, pp. 29-41.

LAJOLO, Marisa. “A figura do negro em Monteiro Lobato”. Unicamp/IEL, 1998.

LIPPI, Lucia. ’”A conquista do espaço: sertão e fronteira no pensamento brasileiro’.”

História, Ciências, Saúde — Manguinhos. vol. V (suplemento), 195-215 julho 1998.

LOBATO, Monteiro. “Fábulas”. São Paulo: Editora Globinho, 2012, 3° Ed.

LOBATO, Monteiro. “O Problema Vital”. São Paulo: Editora Globo, 2010.

LOBATO, Monteiro. “Urupês”. São Paulo: Editora Globo. 2009, 2° Ed.

SANTOS, Luiz Antonio de Castro. O pensamento sanitarista na Primeira República: Uma ideologia de construção da nacionalidade. Dados. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v.28, n.2, p.193-210, 1985.

SCHWARZ, Roberto. Os pobres na Literatura brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

Padrão

Texto Final (balanço bibliográfico)

Introdução

Nessa breve pesquisa sobre a obra e o projeto modernizador – fundamentado em três aspectos, Economia, Cultura e Eugenia, que irão ser abordados a seguir – que Monteiro Lobato tinha para o Brasil, notamos que seu pensamento sofreu algumas mudanças ao decorrer do tempo. O autor demonstrava grande preocupação com o avanço do país e desde 1915 suas obras revelavam a preocupação com as condições de vida das populações rurais, bem como outros autores, como Euclides da Cunha, Lima Barreto e Guimarães Rosa.

No entanto, as primeiras obras de Lobato focavam nos defeitos da raça como responsáveis por supostas características das populações rurais, como apatia, indolência, incapacidade para o trabalho, etc. Mais tarde, como aponta o crítico literário Agrupino Grieco, Lobato apresenta uma nova fase, na qual revê suas antigas posições, por volta de 1918. Nessa fase, o autor já não culpa o trabalhador o rural por sua pobreza, nem o rotula como incapaz. Pelo contrário: é dele, que mesmo doente, se extrai grande parcela da riqueza nacional.

A seguir, traçamos um panorama a partir das bases que fundamentam esse projeto modernizador que Monteiro Lobato tinha para o Brasil. Depois, trataremos sobre a questão da mudança de pensamento de Lobato e como isso se refletiu em sua literatura, bem como a identificação com  pensamento de outros autores da corrente nacionalista.

Economia

Monteiro Lobato era um grande interessado pela modernização do Brasil. Esse interesse se deu com a sua estadia nos Estados Unidos, de 1927 a 1931, quando trabalhou como adido comercial nomeado pelo presidente Washington Luís. Na sua volta ao Brasil, Lobato se envolve com a questão do petróleo e cria, em 1932, a “Companhia Petróleo Nacional” (CPN), em parceria com Edson de Cardoso, e a “Companhia Petróleos do Brasil” (CBP). A partir disso, Lobato se dedica completamente a essa causa.

O autor levou toda essa questão à literatura, pois a via como principal arma de divulgação de informação, fazendo uma trilogia sobre Petróleo. Em 1935, ele traduziu, juntamente com Charles Frankie, “A luta pelo petróleo”, de Essad Bey. Em 1936 escreveu “O escândalo do petróleo” e, em 1937, escreveu um livro infantil, “O poço do Visconde”.

Boa parte da sua relação com a causa petrolífera está documentada nas cartas trocadas com o engenheiro de perfurações, Charles Frankie, no período de 1934 a 1937. Em sua tese de doutorado, Kátia Chiaradia traz à tona esses bastidores do projeto de Monteiro Lobato. Além disso, na análise das cartas, Kátia mostra como Lobato mesclava seus ideais políticos com sua literatura, trazendo, em vários momentos, situações do real para a ficção.
Conforme afirma Chiaradia, em sua tese, “Lobato e Frankie discutiram literatura em inúmeros aspectos, como o que constitui uma boa tradução, ou ainda o que faz um livro ser bem editado e bem distribuído.” (CHIARADIA, 2016). Os exemplares de A luta do petróleo, cuja tradução foi lançada em 1935, eram tidos por eles como propulsores de uma nova Era para as pesquisas petrolíferas. Em carta datada de 01/05/35, Lobato apresenta sua tese de que  “o livro vai abrir os olhos dessa gente”:

“Acabei A Luta do Petróleo. O editor [daqui] pagará 500 marcos ao editor alemão, de direitos, e nós daremos nosso trabalho de tradução de graça em troca de 1000 exemplares para distribuirmos pelo congresso federal e estadual e mais gente do governo que não tem a menor ideia do que seja o petróleo. […] Mas tudo só depois de sair o livro. O livro é que vai abrir os olhos dessa gente, mostrando a significação do petróleo.”

Segundo Kátia “ao aceitar exemplares do livro como remuneração pelo seu trabalho na tradução d’ “A Luta”, Monteiro Lobato permite-nos ressaltar ao menos duas de suas características como editor: a confiança nos livros como objeto de militância e sua noção de equivalência de valores financeiros “livro x trabalho”. (CHIARADIA, 2016)

 Dentre os seus trabalhos como editor, Lobato foi  tradutor e divulgador dos livros de Henry Ford no Brasil, e durante esse trabalho, ele passou a ter conhecimento da proposta fordista  em relação à técnica de trabalho, e também em relação à visão de mundo defendido por esta abordagem.  Lobato passou a ver esse modelo como uma solução para o atraso material do país, além da elaboração de uma forma de sujeição das camadas populares ( tendo em vista o movimento grevista ocorrido em 1920, no qual Lobato presenciou o movimento dentro da sua editora).

Além de confirmar as suas ideias em relação ao atraso brasileiro em comparação ao “progresso” americano, e da elaboração de estratégia para vencê-lo (campanha do petróleo), em sua estadia nos Estados Unidos, Lobato também adquiriu outras ideias relacionadas ao projeto de  modernização do país, centrada na questão do trabalho. Conforme Campos (1986), no livro “A república do picapau amarelo, nos textos do livro “O problema Vital” (1918), são, “reflexões sobre a questão do trabalho nas quais desponta uma consciência da  necessidade de se modernizar as relações de trabalho no país, através da melhoria das condições de vida da população rural” , sendo assim, a luta pela industrialização do país, fundamentado no modelo fordista. Lobato acreditava que, o trabalho produtivo e eficiente trazia junto a riqueza e consequentemente a eliminação da pobreza.

Cultura

No artigo “Monteiro Lobato e o racismo”, Adilson Miguel afirma que “muitos estudiosos tendem a considerar mais relevantes sua atuação como homem público do que como escritor. O Trabalho como editor e divulgador de livros é em geral mais valorizado do que sua obra literária”. Contudo, outros autores contra argumentam que o reconhecimento do escritor se constituiu principalmente em suas produções destinadas ao público infantil, ou ainda, segundo Benjamin Abdala Junior, é possível considerar as duas coisas: “(Monteiro Lobato) consagrou-se como nosso maior escritor infanto-juvenil e promoveu uma revolução editorial no país”.

Antes de se constituir como um autor literário, Lobato se dedicava aos trabalhos jornalísticos, intensificado ainda mais em 1915, com a criação, juntamente com seus sócios, da Revista do Brasil, cuja proposta editorial fundamentava-se  no nacionalismo, no qual tal projeto vinha de encontro com o seu ideário.  No ano de 1920,  Lobato fundou a Monteiro Lobato e Cia, e é nesse período que ele se estabelece no o mundo editorial, promovendo a revolução do mesmo. Como editor, seguindo a tendência  editorial, Lobato começa a se dedicar às publicações do gênero didático, de uso obrigatório nas escolas. Em 1921,  lançou o livro “Narizinho arrebitado”, que, posteriormente, é adotado pelo governo de São Paulo para uso no segundo ano das escolas públicas, conquistando a crítica e professores. Com o sucesso adquirido pela primeira publicação no ramo da literatura infantil, como também, pela primeira publicação (autoral) da Monteiro Lobato e Cia, Lobato passou a ver o Livro como uma mercadoria, reformulado os padrões gráficos, com o acréscimo de ilustrações e de cores mais chamativas, “tornando o produto mais cativante aos olhos do consumidor” (AZEVEDO, CAMARGOS, SACCHETTA, 1998, p. 131  ).

Frente a isso, Lobato passa a idealizar que, através dos livros infantis, seria possível educar as crianças com uma nova mentalidade nacional. Após o contato com algumas fábulas de escritores estrangeiros, Lobato passa a querer recriar as histórias de acordo com o seus interesses. No ano de 1922 , lança o livro “Fábulas”, com curtas narrativas,  que, ao final, traziam uma moral com o objetivo de formação intelectual das crianças. Segundo a opinião do autor:

“As fábulas constituem um alimento espiritual correspondente ao leite na primeira infância. Por intermédio delas a moral, que não é outra coisa mais que a própria sabedoria da vida acumulada na consciência da humanidade, penetra na alma infante, conduzida pela loquacidade inventiva da imaginação. Esta boa fada mobiliza a natureza, dá fala aos animais, às árvores, às águas e tece com esses elementos pequeninas tragédias donde ressurte a “moralidade”, isto é, a lição da vida. O maravilhoso é o açúcar que disfarça o medicamento amargo e torna agradável a sua ingestão” (LOBATO, 1922, p.171).

Eugenia

Em suas primeiras produções literárias, Monteiro Lobato já mostrava a sua preocupação frente ao projeto de modernização do Brasil, em relação à inferioridade do povo brasileiro e a mistura de raça responsáveis, segundo ele, pelo atraso do país criando um tipo de raça incapaz de se desenvolver. Simpatizante do pensamento social determinista, de Le Bons e condicionado pela imagem racista das “elites cultas” do país no final do século XIX e início do século XX,  Lobato defendia a superioridade da raça branca em relação às outras. Esse pensamento era exposto explicitamente em suas obras adultas e infantis. Segundo Lajolo (1998), no artigo “A figura do negro em Monteiro Lobato”, “similares má-criações têm servido de munição para leituras que tomam o xingamento como manifestação explícita do racismo de Lobato”, no mesmo artigo, afirma “ na denúncia bem intencionada dos xingamentos de Emília, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem”.

No livro “Urupês” (1918), no último conto, Monteiro Lobato apresenta o personagem Jeca Tatu, sendo este a representação dos caboclos que viviam no interior. O autor pensa esse tipo como pessoas impenetráveis ao progresso, pois são pessoas que fundamentam de suas crenças à medicina no misticismo e na cultura popular. Lobato vê de maneira racista a população brasileira, sempre colocando o negro em posição inferior aos brancos.

Pode-se notar isso no livro “As histórias de tia Nastácia” (1937), no qual Emília, Narizinho e Pedrinho questionam a todo tempo as histórias populares que tia Nastácia lhes conta. Essa visão do autor fica evidente em trechos do livro como o que se segue:

“ – Sim – disse Dona Benta –  nós não podemos exigir do povo um apuro artístico dos grandes escritores. O povo… o que é o povo? são essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.” (pag. 110).

Quando Tia Nastácia se coloca como contadora de histórias, ela “transfere para o lugar de contadora de histórias a inferioridade sócio cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso…), por contar histórias que vêm da tradição oral não desempenha função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna á de seus ouvintes, consumidores e exigentes da cultura escrita (…)” (LAJOLO, 1998). No entanto, quando Dona Benta assume a posição de contadora de histórias, no livro “Peter Pan” (1930) e “D.Quixote das crianças” (1936), ela conta as histórias que lê em livros estrangeiros a partir de um espaço hegemônico em relação aos seus ouvintes, visto que é alguém adulta e notoriamente mais experiente.

Tendo em vista os problemas sociais do país, principalmente em relação ao saneamento básico, Lobato passa a se questionar se o real “problema” dos caboclos eram antes  em função do meio no qual viviam, do “subdesenvolvimento” do país que gera a fome, a doença e a pobreza, e com isso, ele repensa o seu julgamento  no livro “O problema vital” (1918 ), no qual diz, “O  caipira não é assim. Está assim”.

Contexto Intelectual  

A partir da mudança de entendimento com relação ao caboclo versus o meio, Lobato passa a compartilhar do mesmo pensamento de alguns intelectuais da época, dentre eles, Euclides da Cunha e Lima Barreto, em oposição aos modernistas,  eles usavam a literatura como um instrumento de denúncia social. Inseridos em um contexto nacionalista, tais escritores passam a refletir sobre a real situação “do homem trabalhador do campo” (CAMPOS, 1986, p.35). Apesar de o caboclo  não ser mais o principal “motivo” do atraso do país, o pensamento social darwinista e as ideias racistas ainda persistiam entre os intelectuais, principalmente em Lobato. Contudo, o centro do debate passou a ser a questão do saneamento e da higiene, sendo que a solução estaria na eficiência do trabalho.

Pode-se dizer que a partir desses debates, começa a se desenvolver uma ideologia sanitarista no Brasil, mais especificamente sobre o sanitarismo rural, que se seguiu ao sanitarismo urbano. Até 1915, as políticas sanitaristas se limitavam às cidades e o sertão permanecia esquecido. Começa a existir, então, uma preocupação em revelar a força simbólica do movimento pelo saneamento dos sertões, enquanto ideologia de construção nacional. Então, durante o período republicano do Brasil, a produção literária passou a ser marcadamente nacionalista, de modo que o objetivo era construir uma identidade nacional.

Segundo Luiz de Castro Santos, nesse contexto, existiam duas correntes de pensamento nacionalista, “uma sonhava com um Brasil “moderno” e atraía intelectuais que viam no crescimento e progresso das cidades brasileiras os sinais da conquista da civilização. A outra corrente preocupava-se em recuperar no interior do país as raízes da nacionalidade, e buscava integrar o sertanejo ao projeto de construção nacional.”  (SANTOS, 1985). Pode-se dizer que Monteiro Lobato passou por essas duas correntes, visto que seu projeto modernizador visava a modernização do país e que, mais tarde, passou a valorizar questões que tratavam dos sertanejos.

Essa questão do sertão teve início com Euclides da Cunha, com o livro “Os Sertões”. O autor foi contra a corrente intelectual que prezava pela cultura europeia, pois tal corrente fugia da própria nacionalidade, visto que se fundamentava em costumes e ideais europeus. Essa temática do isolamento e atraso do sertanejo também se revelou nas obras de Monteiro Lobato, que lutou pela modernização do país e, desde 1915, passou a tratar em suas obras sobre a preocupação com as condições de vida da população rural.

Como já mencionado, as primeiras obras de Lobato focavam nos defeitos da “raça” como responsáveis por supostas características das populações rurais, como apatia e incapacidade para o trabalho. No entanto, por volta de 1918, segundo o crítico Agripino Grieco, Lobato começa a apresentar uma nova face em suas obras, na qual revê suas antigas posições e já não culpa o sertanejo por sua pobreza e nem o rotula como antes, pelo contrário: ele passa a entender o sertanejo como fonte de grande parcela da riqueza nacional, mesmo estando doente. Lobato estava convicto de que “a doença é a origem de todos os males do país. A doença, não permitindo ao homem brasileiro desenvolver toda a sua potencialidade física e mental, estava criando uma raça de fracos, incapazes para o trabalho eficiente” (CAMPOS, 1986, p.36).

Lobato passa a ter como problemática de seus textos as doenças endêmicas, e passa a escrever diversos artigos com o intuito de divulgar as ideias sobre o saneamento nacional, publicados no jornal Estado de S. Paulo. Sua preocupação era, em parte, com as condições de saúde do caipira, de forma que o saneamento rural era a questão nacional por excelência. A questão fundamental para esses autores que constituíam essa corrente nacionalista era fazer com que os intelectuais começassem a olhar para as endemias do sertão, pois, assim, se construiria uma identidade nacional, de fato. Essa integração dos sertões ao litoral representava um grande desafio para que houvesse o fortalecimento da nacionalidade, pois a população doente significa uma raça fraca, e uma raça fraca geraria uma nação sem futuro.

Referências Bibliográficas

ADILSON, Miguel. “Lobato e o racismo: Desvios e equívocos no debate”. Revista Emília. Fevereiro,2013.

AZEVEDO, Carmen Lucia de. “Monteiro Lobato: furação na Botocúndia”. In: Carmen Lucia de Azevedo, Marcia Mascarenhas de Rezende Camargos, Vladmir Saccheta (org.) São Paulo: Editora SENAN São Paulo, 1998, 2° Ed.

CAMPOS, Almeida Luiz Vieira de. “A república do picapau amarelo: uma leitura de Monteiro Lobato”. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

CHIARADIA, Kátia. “Edição de textos fidedigna e anotada das cartas trocadas entre Monteiro Lobato e Charles Frankie (1934-1937): Edição e estudo da correspondência entre Monteiro Lobato, Charles Frankie e alguns companheiros da Campanha Petrolífera, como Edson de Carvalho.” Dissertação de Doutorado. Campinas: IEL/UNICAMP, 2016.

CHIARADIA, Kátia. “O poço do Visconde: o faz-de-conta quase de verdade”. In: LAJOLO, M.; CECCANTINI, J. L. (org.). Monteiro Lobato livro a livro. São Paulo: Ed. Unesp, 2009.

LAJOLO, Marisa. “A figura do negro em Monteiro Lobato”. Unicamp/IEL, 1998.

LOBATO, Monteiro. “Fábulas”. São Paulo: Editora Globinho, 2012, 3° Ed.

LOBATO, Monteiro. “O Problema Vital”. São Paulo: Editora Globo, 2010.

LOBATO, Monteiro. “Urupês”. São Paulo: Editora Globo. 2009, 2° Ed.

SANTOS, Luiz Antonio de Castro. O pensamento sanitarista na Primeira República: Uma ideologia de construção da nacionalidade. Dados. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v.28, n.2, p.193-210, 1985.

 

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Relatório da bibliografia encontrada – Primeira versão

Ao realizar a pesquisa bibliográfica a respeito da obra de Monteiro Lobato, notamos que o projeto de modernização que o autor tinha para o Brasil se baseava em três aspectos, sendo eles Economia, Cultura e Eugenia. Todos esses aspectos se mesclavam, em certa medida, visto que eram pensados como complementares um ao outro. 

Economia

Monteiro Lobato era um grande interessado pela modernização do Brasil. Esse interesse se deu com a sua estadia nos Estados Unidos, de 1927 a 1931, quando trabalhou como adido comercial nomeado pelo presidente Washington Luís. Na sua volta ao Brasil, Lobato se envolve com a questão do petróleo e cria, em 1932, a “Companhia Petróleo Nacional” (CPN), em parceria com Edson de Cardoso, e a “Companhia Petróleos do Brasil” (CBP). A partir disso, Lobato se dedica completamente a essa causa.

O autor levou toda essa questão à literatura, pois a via como principal arma de divulgação de informação, fazendo uma trilogia sobre Petróleo. Em 1935, ele traduziu, juntamente com Charles Frankie, “A luta pelo petróleo”, de Essad Bey. Em 1936 escreveu “O escândalo do petróleo” e, em 1937, escreveu um livro infantil, “O poço do Visconde”.

Boa parte da sua relação com a causa petrolífera está documentada nas cartas trocadas com o engenheiro de perfurações, Charles Frankie, no período de 1934 a 1937. A pesquisadora Kátia Chiaradia, em sua tese de doutorado – “Edição de textos fidedigna e anotada das cartas trocadas entre Monteiro Lobato e Charles Frankie (1934-1937): Edição e estudo da correspondência entre Monteiro Lobato, Charles Frankie e alguns companheiros da Campanha Petrolífera, como Edson de Carvalho.” –, traz à tona esses bastidores do projeto de Monteiro Lobato. Além disso, na análise das cartas, Kátia mostra como Lobato mesclava seus ideais políticos com sua literatura, trazendo, em vários momentos, situações do real para a ficção.

Conforme afirma Chiaradia, “Lobato e Frankie discutiram literatura em inúmeros aspectos, como o que constitui uma boa tradução, ou ainda o que faz um livro ser bem editado e bem distribuído.” (CHIARADIA, 2016). Os exemplares de A luta do petróleo, cuja tradução foi lançada em 1935, eram tidos por eles como propulsores de uma nova Era para as pesquisas petrolíferas. Em carta datada de 01/05/35, Lobato apresenta sua tese de que  “o livro vai abrir os olhos dessa gente”:

“Acabei A Luta do Petróleo. O editor [daqui] pagará 500 marcos ao editor alemão, de direitos, e nós daremos nosso trabalho de tradução de graça em troca de 1000 exemplares para distribuirmos pelo congresso federal e estadual e mais gente do governo que não tem a menor ideia do que seja o petróleo. […] Mas tudo só depois de sair o livro. O livro é que vai abrir os olhos dessa gente, mostrando a significação do petróleo.”

Segundo Kátia “ao aceitar exemplares do livro como remuneração pelo seu trabalho na tradução d’ “A Luta”, Monteiro Lobato permite-nos ressaltar ao menos duas de suas características como editor: a confiança nos livros como objeto de militância e sua noção de equivalência de valores financeiros “livro x trabalho”. (CHIARADIA, 2016)

Dentre os seus trabalhos como editor, Lobato foi  tradutor e divulgador dos livros de Henry Ford no Brasil, e durante esse trabalho, ele passou a ter conhecimento da proposta fordista  em relação à técnica de trabalho, e também em relação à visão de mundo defendido por esta abordagem.  Lobato passou a ver esse modelo como uma solução para o atraso material do país, além da elaboração de uma forma de sujeição das camadas populares ( tendo em vista o movimento grevista ocorrido em 1920, no qual Lobato presenciou o movimento dentro da sua editora).

Além de confirmar as suas ideias em relação ao atraso brasileiro em comparação ao “progresso” americano, e da elaboração de estratégia para vencê-lo (campanha do petróleo), em sua estadia nos Estados Unidos, Lobato também adquiriu outras ideias relacionadas ao projeto de  modernização do país, centrada na questão do trabalho. Conforme Campos (1986), no livro “A república do picapau amarelo”, nos textos do livro “O problema Vital” (1918), são, “reflexões sobre a questão do trabalho nas quais desponta uma consciência da  necessidade de se modernizar as relações de trabalho no país, através da melhoria das condições de vida da população rural” , sendo assim, a luta pela industrialização do país, fundamentado no modelo fordista. Lobato acreditava que, o trabalho produtivo e eficiente trazia junto a riqueza e consequentemente a eliminação da pobreza.

Cultura

No artigo “Monteiro Lobato e o racismo”, Adilson Miguel afirma que “muitos estudiosos tendem a considerar mais relevantes sua atuação como homem público do que como escritor. O Trabalho como editor e divulgador de livros é em geral mais valorizado do que sua obra literária”. Contudo, outros autores contra argumentam que o reconhecimento do escritor se constituiu principalmente em suas produções destinadas ao público infantil, ou ainda, segundo Benjamin Abdala Junior, é possível considerar as duas coisas: “(Monteiro Lobato) consagrou-se como nosso maior escritor infanto-juvenil e promoveu uma revolução editorial no país”.

Antes de se constituir como um autor literário, Lobato se dedicava aos trabalhos jornalísticos, intensificado ainda mais em 1915, com a criação, juntamente com seus sócios, da Revista do Brasil, cuja proposta editorial fundamentava-se  no nacionalismo, no qual tal projeto vinha de encontro com o seu ideário.  No ano de 1920,  Lobato fundou a Monteiro Lobato e Cia, e é nesse período que ele se estabelece no o mundo editorial, promovendo a revolução do mesmo. Como editor, seguindo a tendência  editorial, Lobato começa a se dedicar às publicações do gênero didático, de uso obrigatório nas escolas. Em 1921,  lançou o livro “Narizinho arrebitado”, que, posteriormente, é adotado pelo governo de São Paulo para uso no segundo ano das escolas públicas, conquistando a crítica e professores. Com o sucesso adquirido pela primeira publicação no ramo da literatura infantil, como também, pela primeira publicação (autora) da Monteiro Lobato e Cia, Lobato passou a ver o Livro como uma mercadoria, reformulado os padrões gráficos, com o acréscimo de ilustrações e de cores mais chamativas, “tornando o produto mais cativante aos olhos do consumidor” (AZEVEDO, CAMARGOS, SACCHETTA, 1998, p. 131  ).

Frente a isso, Lobato passa a idealizar que, através dos livros infantis, seria possível educar as crianças com uma nova mentalidade nacional. Após o contato com algumas fábulas de escritores estrangeiros, Lobato passa a querer recriar as histórias de acordo com o seus interesses. No ano de 1922 , lança o livro “Fábulas”, com curtas narrativas,  que, ao final, traziam uma moral com o objetivo de formação intelectual das crianças. Segundo a opinião do próprio autor:

“As fábulas constituem um alimento espiritual correspondente ao leite na primeira infância. Por intermédio delas a moral, que não é outra coisa mais que a própria sabedoria da vida acumulada na consciência da humanidade, penetra na alma infante, conduzida pela loquacidade inventiva da imaginação. Esta boa fada mobiliza a natureza, dá fala aos animais, às árvores, às águas e tece com esses elementos pequeninas tragédias donde ressurte a “moralidade”, isto é, a lição da vida. O maravilhoso é o açúcar que disfarça o medicamento amargo e torna agradável a sua ingestão” (LOBATO, 1922, p.171).

Eugenia

Em suas primeiras produções literárias, Monteiro Lobato já expunha a sua preocupação frente ao projeto de modernização do Brasil em relação à inferioridade do povo brasileiro e mistura de raça, responsáveis, segundo ele, pelo atraso do país, criando um tipo de raça incapaz de se desenvolver. Simpatizante do pensamento social determinista, de Le Bons, Monteiro Lobato defendia a superioridade da raça branca em relação às outras. Esse pensamento era exposto explicitamente em suas obras adultas e infantis. Segundo Lajolo (1998), no artigo “A figura do negro em Monteiro Lobato”, “similares má-criações têm servido de munição para leituras que tomam o xingamento como manifestação explícita do racismo de Lobato”, no mesmo artigo, afirma “ na denúncia bem intencionada dos xingamentos de Emília, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem”.

Em seu livro Urupês, no último conto, Monteiro Lobato apresenta a personagem Jeca Tatu, sendo este a representação dos caboclos que viviam no interior. O autor pensa esse tipo como pessoas impenetráveis ao progresso, pois são pessoas que fundamentam de suas crenças à medicina no misticismo e na cultura popular. Lobato vê de maneira racista a população brasileira, sempre colocando o negro em posição inferior aos brancos.

Pode-se notar isso no livro “As histórias de tia Nastácia” (1937), no qual Emília, Narizinho e Pedrinho questionam a todo tempo as histórias populares que tia Nastácia lhes conta. Essa visão do autor fica evidente em trechos do livro como o que se segue:

“ – Sim – disse Dona Benta –  nós não podemos exigir do povo um apuro artístico dos grandes escritores. O povo… o que é o povo? são essas pobres tias velhas, como Nastácia, sem cultura nenhuma, que nem ler sabem e que outra coisa não fazem senão ouvir as histórias de outras criaturas igualmente ignorantes, e passá-las para outros ouvidos, mais adulteradas ainda.” (pag. 110).

Quando Tia Nastácia se coloca como contadora de histórias, ela “transfere para o lugar de contadora de histórias a inferioridade sócio cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso…), por contar histórias que vêm da tradição oral não desempenha função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna á de seus ouvintes, consumidores e exigentes da cultura escrita (…)” (LAJOLO, 1998). No entanto, quando Dona Benta assume a posição de contadora de histórias, no livro “Peter Pan” (1930) e “D.Quixote das crianças” (1936), ela conta as histórias que lê em livros estrangeiros a partir de um espaço hegemônico em relação aos seus ouvintes, visto que é alguém adulta e notoriamente mais experiente.

Tendo em vista os problemas sociais do país, principalmente em relação ao saneamento básico, Lobato passa a se questionar se o real “problema” dos caboclos era antes  em função do meio no qual viviam, o “subdesenvolvimento” que gera fome, a doença e a pobreza, com isso, ele repensa o seu julgamento  no livro “O problema vital” (1918 ), no qual diz, “O  caipira não é assim. Está assim”.

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Referências Bibliográficas

ADILSON, Miguel. “Lobato e o racismo: Desvios e equívocos no debate”. Revista Emília. Fevereiro,2013.

AZEVEDO, Carmen Lucia de. “Monteiro Lobato: furação na Botocúndia”. In: Carmen Lucia de Azevedo, Marcia Mascarenhas de Rezende Camargos, Vladmir Saccheta (org.) São Paulo: Editora SENAN São Paulo, 1998, 2° Ed.

CAMPOS, Almeida Luiz Vieira de. “A república do picapau amarelo: uma leitura de Monteiro Lobato”. São Paulo: Martins Fontes, 1986.

CHIARADIA, Kátia. “Edição de textos fidedigna e anotada das cartas trocadas entre Monteiro Lobato e Charles Frankie (1934-1937): Edição e estudo da correspondência entre Monteiro Lobato, Charles Frankie e alguns companheiros da Campanha Petrolífera, como Edson de Carvalho.” Tese de Doutorado. Campinas: IEL/UNICAMP, 2016.

CHIARADIA, Kátia. “O poço do Visconde: o faz-de-conta quase de verdade”. In: LAJOLO, M.; CECCANTINI, J. L. (org.). Monteiro Lobato livro a livro. São Paulo: Ed. Unesp, 2009.

LAJOLO, Marisa. “A figura do negro em Monteiro Lobato”. Unicamp/IEL, 1998.

LOBATO, Monteiro. “Fábulas”. São Paulo: Editora Globinho, 2012, 3° Ed.

LOBATO, Monteiro. “O Problema Vital”. São Paulo: Editora Globo, 2010.

LOBATO, Monteiro. “Urupês”. São Paulo: Editora Globo. 2009, 2° Ed.

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Resumo dos contos – Velha praga e Urupês de Monteiro Lobato: Primeira versão

Velha Praga

O conto traz a história da praga que é o sujeito caboclo. Monteiro Lobato, o descreve como um ser baldio, seminômade, inadaptável à civilização, parasita da terra por agregar-se dela e quando está já não atende mais as suas necessidades, ele salta para adiante igual como ali chegou. Monteiro Lobato, narra a sua trajetória em relação à apropriação da terra do qual o caboclo “agrega-se”.
Ele chega com sua fêmea que carrega no útero um ser, um ao peito e outro de sete anos agarrado na saia com um fumo na boca. Além de um cachorro sardento, a pica-pau, a panela de barro e um santo encardido. Em três dias sua casa brota da terra e começa as requisições. Planta palmito para vendê-lo e adquirir pólvora e chumbo. Quando acaba o palmito ele ataca a floresta. Roça e derruba. Quando terminado à roça é tempo da queimada. É fogo de mato! O fogo invade floresta adentro só se esquiva com a chuva repentina, o caboclo ainda olha e fala: “Eta fogo bonito!” E a justiça nada faz contra , a lei não os prende, por isso ele é apenas “tocado” dali. Em setembro quando a terra para de der milho, o agregado muda de território. Em pouco tempo a terra engole a tapinha que construíram. Não restando mais nada ali, da passagem do caboclo na natureza circunvizinha.

Urupês

Esse conto, Urupês, que possui o mesmo título da obra, é o último conto do livro. Nesse conto, Monteiro Lobato apresenta uma de suas maiores personagens: o Jeca Tatu. O título vem do apelido que essa personagem tem, “urupê”, uma espécie de fungo parasita. O Jeca Tatu é o representante máximo do caboclo, que vive baseado na Lei do Menor Esforço, ou seja, se alimentando e se curando apenas daquilo que a natureza lhe oferece. Sem nenhum tipo de educação e alheio a tudo o que acontece pelo país e pelo mundo, o Jeca Tatu representa a ignorância do homem do campo.
Ao apresentar essa ideia, Monteiro Lobato vai contra uma tradição inaugurada por José de Alencar, que apontava a mestiçagem do índio com o branco uma geradora de nação. Para Lobato, a mistura de raças gera um tipo fraco, preguiçoso e passivo. Isso porque sua religião se manifesta através de superstição e magias; sua medicina se baseia no uso de plantas e também carrega certo grau de misticismo e sua política é praticamente inexistente, passível de manipulação do chefe de sua terra. Sua casa não possui sequer uma mobília, possuindo apenas um banquinho de três pernas para as visitas. Quanto à produção, se dedica apenas a colher o que a natureza lhe oferece, tendo somente que “espichar a mão e colher”. O caboclo é coerente em relação à Lei do menor esforço.
Dessa forma, Monteiro Lobato apresenta o Jeca Tatu, o caboclo, como um atraso cívico, sendo ele uma criatura ignorante, preguiçosa, sem senso artístico e sem ambições de permanência na sua terra e realização de vida. Para o caboclo, “nada paga a pena”, de qualquer jeito se vive. A imagem que se cria do Jeca Tatu, nesse contexto, é a de que “o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas. Só ele não fala, não canta, não ama. Só ele, no meio de tanta vida, não vive…”.

 

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